O Direito de Ir

Medicina & Saúde - Coluna semanal da psicanalista Rossana Braghini

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Rossana Stella Oliva Braghini - Psicanalista

 

No curso de minha primeira análise pessoal, minha analista faleceu. Ela havia descoberto que tinha um câncer incurável no último ano de sua vida. E, excetuando seus familiares, alguns pacientes e uma amiga íntima que veio de outro país, decidiu que não queria ver mais ninguém. Eu nunca soube de seus motivos para tal decisão, mas me surpreendeu muito o comentário de uma pessoa que se questionava seriamente se devia ou não atender ao pedido dela. Talvez, segundo esta pessoa, que a conhecia socialmente, “fosse melhor furar o cerco para oferecer seus préstimos”... Não deixa de ser curioso que uma pessoa acredite saber o que é melhor para outra, mais do que ela mesma !?

 

Ontem, me deparei com uma reportagem que falava da morte de Walmor Chagas. “Triste por não enxergar direito e com problemas de locomoção, ator, diretor e produtor planejou a própria morte.”  Walmor Chagas teve uma vida significativa, suas realizações o atestam: 48 anos de carreira, 19 filmes, 35 novelas e 37 peças teatrais. Casado durante dez anos com a atriz Cacilda Becker (até que ela faleceu de um derrame cerebral), optaram por adotar  Maria Clara Becker, que hoje está com 47 anos e é cantora.

 

Walmor aos 82 anos, não podia ler nem trabalhar. Portanto, decidiu por um fim em sua vida com um tiro na cabeça, após desejar muito que o destino lhe desincumbisse desta tarefa final. Queria morrer em queda de um avião rápida e eficazmente. Mas, queria morrer. Desejava isto e repetia constantemente  para amigos e familiares.

 

Freud sempre disse que no ser humano existe uma força de vida e uma força de morte,  e  é por esta que morremos. Esta força de morte não é tão visível porque socialmente a morte é tudo que coletivamente decidimos que devemos evitar. É “O mal”. Haja vista a busca desesperada que temos pelo bem estar e saúde. O pavor é tanto, que o desejo de morte que coabita com o de vida, é obrigado a manter-se escondido de nós mesmos.  Por isso não aceitamos que uma pessoa decida querer interromper sua vida e achamos, como teria dito Eva Wilma, “uma má escolha” de Walmor. Se ela disse ou não, pouco importa. Certamente há muitos com a mesma opinião. O que eu não entendo é novamente o seguinte: Por que as pessoas acham que sabem o que é melhor para os outros , mais ainda do que eles mesmos? Para mim está aqui a violência maior que um ser humano pode infligir a outro.

 

E de minha parte, eu questiono só o seguinte: se o desejo de Walmor Chagas, foi LÚCIDO e REITERADO, porque socialmente  o obrigamos a se dar um tiro na cabeça? Será que não poderia existir um dispositivo social que auxiliasse as pessoas em seu direito de ir? 

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