A respeito de nascer e crescer bem

Medicina & Saúde - coluna semanal de Sueli Gehlen Frosi

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· 2 min de leitura
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Sueli Gehlen Frosi

 

Lembro bem do meu primeiro encontro com o Dr. Frédérick Leboyer (1918). Aconteceu em uma clínica de Curitiba, quando do nascimento da nossa primeira filha. Fui informada já em trabalho de parto, de que ela nasceria segundo os preceitos de Leboyer, médico e professor da Universidade de Paris. Tive, portanto, há quase quarenta anos uma experiência magnífica, inesquecível e coroada de êxito.

Eliza nasceu na penumbra, embalada por música suave, em um ambiente onde as pessoas sussurravam. Não houve pressa nenhuma e me foi permitido recebê-la com calma e estimulada a acariciar seu corpinho ainda coberto pelos líquidos nos quais esteve até aquele momento. Era meu segundo parto. O primeiro também aconteceu de forma ideal, mas sem o respeito pelo bebê que vivenciei ali.

Estamos esperando um netinho que deverá nascer por estes dias. Encontramos na casa da nossa filha e do nosso genro o livro NASCER SORRINDO de Frédérick Leboyer (Ed. Brasiliense). Lemos emocionados o conteúdo que já conhecíamos por experiência.

No terceiro dia da nossa visita conhecemos uma livraria, dentro de um enorme e luxuoso shopping center paulistano e eis que encontro, de cara, o livro SHANTALA, do mesmo autor. É um relato poético de como massagear um bebê. A técnica, segundo ele “parecia um balé devido a tanta harmonia e ritmo exato, embora de extrema lentidão. E, como o amor, possuía seu tanto de abandono e ternura.” Shantala é uma mulher pobre, que ele encontrou nas ruas imundas de Calcutá, Índia, um país que canta: “É no lodo que o lótus finca raízes.” Shantala deu ao médico uma profunda lição e revelou-lhe um segredo de beleza. “E este segredo estava bem ali. Feito simplesmente, de amor e de luz, de silencio e gravidade.”

Estou muito agradecida a Leboyer por revelar que a vida nos dá muitas chances e, se perdemos uma, temos como compensar. É o caso do nascimento, que nem sempre é o ideal, nem sempre é uma experiência pessoal de receber nossos filhos. Às vezes os recebemos um pouco mais tarde, como no caso dos pais que adotam. Mas temos muitas outras chances, como a massagem tão bem mostrada por uma mulher simples, cujo filho beneficiou-se, mesmo em meio ao lixo.

Penso muito em quem só consegue tocar em alguém com constrangimento; em quem não tem memória de ter sido tocado; em quem se sabe negligenciado. Aí penso que podemos resgatar muita coisa, não à perfeição, por que, quem nasce com todo o cuidado certamente terá menos trabalho consigo mesmo pela vida afora. Mas podemos cuidar de nós mesmos e dar-nos o colo que nos foi negado.

E podemos nutrir por um bebê ainda não nascido um amor imenso, o que prova nossa humanidade. Estamos aqui, longe de casa, esperando pelo nosso netinho Dante. Quando este texto for publicado talvez já o tenhamos no colo.

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