Diabetes mellitus é a praga do século XXI

Doença milenar é impulsionada pela má alimentação e sedentarismo precoce

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Hugo Roberto Kurtz Lisboa, MD, PhD, é professor de Endocrinologia na Faculdade de Medicina da Universidade de Passo Fundo e integra o corpo clínico do Hospital São Vicente de Paulo.Hugo Roberto Kurtz Lisboa, MD, PhD, é professor de Endocrinologia na Faculdade de Medicina da Universidade de Passo Fundo e integra o corpo clínico do Hospital São Vicente de Paulo.
Hugo Roberto Kurtz Lisboa, MD, PhD, é professor de Endocrinologia na Faculdade de Medicina da Universidade de Passo Fundo e integra o corpo clínico do Hospital São Vicente de Paulo.
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A Diabetes mellitus tem sua primeira descrição no papiro de Ebers, escrito há 3.500 anos (cerca de 1.500 antes de Cristo). Neste texto se descreve um homem que bebia muita água, urinava muito e emagrecia. Estes são aos sinais de um quadro de diabetes descompensada. Define-se como diabetes aqueles indivíduos que tenham uma glicose medida no sangue, após 8 horas de jejum, acima de 126 mg/dl. Com estes valores o paciente não tem sintoma algum, mas o distúrbio glicêmico já está comprometendo a sua micro e macro circulação. Desta forma é fácil entender porque mais de 50 % dos pacientes já tem a doença e não sabem. Imaginem que temos mais de 12 milhões de pacientes com diabetes no Brasil e uma grande maioria não tem conhecimento da sua situação, os quais podem apresentar as complicações que afetam os olhos, os nervos, os rins e as grandes artérias ou que apresentem os sintomas do egípcio do papiro de Ebers.

Fast-food, refri e computador
A diabetes mais frequente é a denominada tipo 2. Esta costuma ocorrer em adultos, na maioria das vezes obesos e sedentários. No Instituto da Criança com Diabetes, em Porto Alegre, já estão registrados 130 casos de diabetes do tipo 2 no Rio Grande do Sul em jovens e crianças. Isto não existia há uns 10 anos atrás. A comida rápida, ‘fast-food’, é nutricionalmente muito ruim. Cheia de carboidratos refinados e gorduras saturadas. Ela costuma ser muito apetitosa e barata. O seu consumo vem acompanhado de refrigerantes, que são uma solução de glicose engarrafada. Quando esta alimentação encontra jovens que não fazem exercícios, entretidos com jogos de computador e mídias sociais, está feito o estrago. Este é o caminho inexorável para a pessoa engordar. E quando o pâncreas não aguentar mais produzir insulina para botar glicose para dentro de um músculo que não gasta e que está com o tecido gorduroso lotado, sobrevém a diabetes.

Substâncias plásticas
Há também a diabetes mellitus do tipo 1, cerca de 10 % de todos os casos. Trata-se de uma doença imunológica em que o sistema de defesa do indivíduo começa a produzir anticorpos contra as células produtoras de insulina no pâncreas. Quando 90 % destas células estão comprometidas aparecem os sintomas de uma forma rápida e o tratamento tem que ser com insulina. Este tipo de diabetes também está aumentando e não se sabe a causa. Há várias teorias para explicar, sendo que uma delas é que estamos ingerindo mais desreguladores endócrinos (em inglês “chemical disruptors) provenientes de embalagens plásticas e de uma infinidade se substâncias químicas que ingerimos em comidas industrializadas.
A propaganda pesada da indústria alimentícia que sugere, através dos recursos de mídia altamente indutores, que Coca-Cola, MacDonalds, “Cheese isto e Cheese aquilo”, são saudáveis. Até companhias tradicionais, como a suíça Nestle, vendem seus produtos prometendo uma alimentação boa. Esta ação danosa foi noticiada no New York Times de 22/09/2017 com o título: “A Nestle viciou o Brasil em comida lixo”.

Uma política nacional
Nas escolas do Brasil a Educação Física se restringe a mirradas duas horas por semana. Muitas vezes os próprios alunos que escolhem o que querem fazer e outros não fazem nada buscando entretenimento no telefone celular. Há 8 órgãos do corpo envolvidos no desenvolvimento da diabetes do tipo 2. Entram aí o pâncreas, fígado, tecido gorduroso, tecido muscular etc. Com aumento da prevalência, por falta de prevenção, há desenvolvimento de remédios para todas estas áreas. Estes são geralmente caros ao serem lançados. Há alguns antigos e muito bons como a metformina que é, junto com outras medicações, fornecida pelo SUS. O paciente diabético mal controlado tem risco maior de ter infarto do miocárdio, derrame cerebral, perda da visão, insuficiência renal e neuropatia que predispõe a amputações. É necessária uma política nacional para incentivar esportes, alimentação saudável e restringir o uso dos eletrônicos. O exercício é bom em qualquer idade e 30 minutos de caminhada, no mínimo 5 vezes por semana, podem diminuir de forma significativa o desenvolvimento desta enfermidade. Sem uma prevenção vamos continuar assistindo monotonamente a “praga” da diabetes assolando nossa população.

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