“Importante é vacinar mais pessoas, no menor tempo possível”

Especialista explica como é calculada a eficácia de um imunizante e que em relação a Coronavac, grupo vacinado tem 50% menos chances de se infectar

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Bastou o Governo de São Paulo divulgar, na terça-feira (12), a eficácia global de 50,38% da vacina Coronavac, produzida pelo Instituto Butantan em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac, para que o imunizante começasse a ser questionado nas redes sociais. Entre confusões matemáticas e comparações equivocadas, o doutor em virologia e professor da Faculdade de Medicina da IMED, Deniz Anziliero, conversou com O Nacional para explicar como é feito o cálculo de eficácia de uma vacina e esclarecer outros pontos essenciais sobre a vacinação contra a covid-19.

 

O NACIONAL: Professor, como é calculada a eficácia de uma vacina?

DENIZ: As vacinas são feitas através de um ensaio clínico randomizado duplo-cego. Ou seja, são selecionadas, criteriosamente, 100 pessoas. Destas, 50 são encaixadas no grupo que vai receber a vacina e as outras 50 no grupo que vai receber o placebo. Nem as pessoas que estão recebendo, nem os pesquisadores sabem se estão fornecendo o imunizante ou o placebo. Ambos têm a mesma aparência, o mesmo cheiro e as mesmas características e, para determinar a eficácia desta vacina, os pesquisadores fazem um cálculo matemático, estatístico. Eles atribuem um número de casos que venham a acontecer durante a avaliação dessa vacina. Por exemplo, a vacina da Pfizer estabeleceu que precisariam ocorrer, dentro das pessoas que participaram do ensaio clínico, no mínimo 160 casos de coronavírus. Imagine que temos dois grupos de 100 pessoas: 50 receberam a vacina, 50 recebem o placebo. Ninguém sabe quem recebeu nada. Matematicamente, para calcular a eficácia, nós estabelecemos que precisam ocorrer 20 casos de covid-19. Então, se monitora e se espera que, dentre esses dois grupos, 20 manifestem a doença. Aí os pesquisadores abrem os dados para saber onde foram esses eventos, se no grupo que recebeu a vacina ou o placebo.

ON: Como foram conduzidos os estudos com a Coronavac?

DENIZ: Nos ensaios com a Coronavac, havia 4,6 mil pessoas no grupo vacinado e 4,6 mil pessoas no grupo placebo. Eles estabeleceram que haveria a necessidade de ocorrer, ao menos, 160 manifestações suspeitas de coronavírus para que se pudesse abrir esses dados e ver qual a porcentagem de infectados no grupo vacinado e no grupo não vacinado. No grupo vacinado, somente 85 desenvolveram sintomas enquanto que no grupo não vacinado se verificou 167 infecções. Então, ocorreram eventos além dos estabelecidos. Quanto mais casos, melhor porque se consegue analisar de uma forma mais precisa a eficácia dessa vacina. Eu tenho visto muito nas redes sociais algumas comparações muito simplistas. Por exemplo, ‘você pularia com um paraquedas que tivesse 50% chances de abrir?’ Na verdade, essa comparação está totalmente errada. Essa eficácia não quer dizer que 50% das pessoas estão vacinadas, mas que, nas pessoas que foram vacinadas, a taxa de infecção é 50% menor que a pessoa que não foi vacinada. Essa que é a real interpretação. O grupo vacinado tem 50% menos chances de se infectar com o coronavírus.

ON: E o que difere uma taxa de eficácia maior entre um imunizante e outro?

DENIZ: Cada uma dessas vacinas que foram apresentadas até agora tem tecnologias de produção diferentes. A forma com que a eficácia foi avaliada também é diferente, por isso que os números não podem ser comparados entre uma vacina e outra. As duas vacinas que o Brasil está apostando no Programa Nacional de Imunização, AstraZeneca e Coronavac, fizeram avaliações de eficácia muito distintas. A Coronavac usou no ensaio clínicos somente profissionais da saúde; a AstraZeneca usou a população em geral. Toda essa diferença reflete na porcentagem final.

ON: Qual a diferença entre essa eficácia mencionada e a efetividade da vacina?

DENIZ: A eficácia é estabelecida e avaliada no quanto pode contribuir para a redução nos casos clínicos leves, graves e internações. Quantas das pessoas vacinadas têm o sistema imunológico estimulado. A eficácia diz respeito apenas ao quanto aquela vacina tem tendência de ser boa quando administrada na população. A efetividade vai depender do resultado prático dessa vacina. Está muito ligada também à adesão da população na Campanha de Vacinação porque não adianta ter uma vacina extremamente eficaz se um número mínimo de pessoas não for vacinada para que seja possível conter o coronavírus. Todas as vacinas apresentadas reduzem a taxa de infecção.

ON: O que é a imunidade de rebanho e quanto tempo se leva para atingi-la?

DENIZ: Esse termo surgiu na Medicina Veterinária, na vacinação dos rebanhos. Significa eu vacinar uma população, um número mínimo de animais, para que quando um agente infeccioso entrar neste rebanho ele não consiga se disseminar. Imagine duas famílias com 10 pessoas. A família A, está esperando pelo início do programa de vacinação, mas digamos que só possam ser vacinados idosos, profissionais de saúde e professores. Destas 10 pessoas, somente 7 conseguiram se vacinar em um primeiro momento. Na família B, nenhuma pessoa será vacinada. Se ambas receberem alguma visita de alguém contaminado, na família A (onde de cada 10, 7 estão vacinadas) o vírus não vai conseguir se disseminar e, quando o vírus começar a entrar em contato com os imunizados, ele não vai ter como passar de uma pessoa para outra. Na família B, onde nenhuma foi vacinada, o vírus será disseminado. Quanto mais próximo das 10 pessoas vacinadas, menos chance de ter infecção. Quanto mais rápido a população daquela localidade for vacinada, mais rapidamente atingiremos a imunidade de rebanho.

Se o Brasil conseguir, logisticamente, distribuir essas vacinas termos resultados muito bons e uma efetividade muito boa ainda que muitas pessoas estejam criticando que ela tenha 50% de efetividade. Por mais que a gente inicie esse processo agora, o coronavírus deve ser erradicado no final de 2022, se for erradicado. Vai ser um resfriado simples. Isso é ruim? Isso é ótimo. Se conseguirmos reduzir e transformar essa pandemia em casos leves e simples, é mais fácil de tratar. O mais importante é vacinarmos o maior número de pessoas no menor tempo possível.

ON: O que explica essa rapidez no desenvolvimento de uma vacina contra o coronavírus?

DENIZ: Todas essas vacinas que estão sendo apresentadas são tecnologias que estão no meio científico há décadas. Existem vários estudos clínicos e experimentais onde os cientistas utilizaram essas tecnologias para estudar doenças distintas. Por que muitas não foram adiante? Porque temos uma questão financeira, de retorno e interesse da indústria e das nações em investir em vacinas e a maioria delas são vacinas caras. A Coronavac e a Covaxin [desenvolvida pela indiana Bharat Biotech], por exemplo, são classificadas como vacinas de primeira geração, que são as mais simples. Elas consistem em crescer o microrganismo em laboratório e depois inativar ele ou matar com produto químico ou temperatura. É uma vacina segura, fácil de fazer. De cada 10, 7 vacinas que temos hoje disponíveis para serem usadas na população brasileira são vacinas inativadas.

ON: As mutações do SARS-CoV-2, detectadas em alguns países, podem comprometer a vacinação?

DENIZ: Era uma coisa esperada. Desde que o vírus foi detectado na China, ele vem mutando. Ele muta para se adaptar. Toda vez que o vírus entra e sai do organismo, ocorrem mutações. As variantes mais transmissíveis estão ligadas à imunidade de rebanho porque quanto antes imunizarmos, menos oportunidades de o vírus sofrer mutações. Se demorarmos muito para vacinar, é possível que no meio do caminho surjam outras variantes, mas por enquanto não temos nada de concreto que nos leve a considerar. 

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