Em duas semanas, Passo Fundo registra 38 mortes por coronavírus

Avanço no índice de óbitos no mês de junho tem se mostrado similar ao ocorrido nos primeiros 14 dias de março, mês mais letal da pandemia até então

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(Foto: Gerson Lopes/Arquivo ON)(Foto: Gerson Lopes/Arquivo ON)
(Foto: Gerson Lopes/Arquivo ON)
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O número de óbitos registrados no mês de junho, até então, tem chamado a atenção para uma tendência de alta nas mortes por coronavírus em Passo Fundo. O boletim epidemiológico da Secretaria Municipal de Saúde, divulgado ontem (14), apontou um registro de 38 mortes em decorrência da Covid-19 em apenas 14 dias. O comportamento tem se mostrado similar ao registrado durante o mês mais letal da pandemia no município, em março deste ano, quando a cidade perdeu 108 moradores em decorrência da doença — dessas mortes, 40 foram confirmadas nos 14 primeiros dias do mês.

A alta no número de mortes acompanha um crescimento no número de casos confirmados. Em um mês, ainda conforme a Secretaria Municipal de Saúde, o município saltou de 27.239 para 31.778 moradores que testaram positivo desde o início da pandemia, o que resulta em um acréscimo de aproximadamente 4,5 mil novos casos. O mesmo é observado no índice relativo aos casos ainda ativos da doença, que passaram de 561 no dia 14 de maio para 1.291 no dia 14 de junho. Conforme a Secretaria Estadual de Saúde, a maior parte dos contaminados tem entre 30 a 39 anos.

Para o médico e mestre em Epidemiologia, que já ocupou o cargo de secretário de Saúde no município, Luiz Artur Rosa Filho, os números refletem uma suposta sensação de normalidade vivida em Passo Fundo. “Hoje, não temos praticamente nada proibido no município, a não ser a restrição das atividades das 21h às 6h. Isso faz com que a circulação de pessoas, ao longo do dia e em todos os lugares, seja talvez demasiadamente alta para o número de casos ativos que temos”.

O primeiro indicador de piora, segundo ele, é o aumento na busca por serviços de referência para atendimento da Covid-19, como é o caso dos Cais Petrópolis e Boqueirão. O médico observa que, quando aumenta o movimento na triagem, aumentam os casos positivos. “Nós estamos, há pelo menos dez dias, com patamares superiores a mil casos ativos. Depois que temos esse sinal de piora, os alertas que acontecem na sequência é o aumento nas internações e, consequentemente, nos óbitos. Isso significa que os próximos 10 dias tendem a ter mais óbitos do que o registrado nos 10 últimos 10 dias que passaram. Essa bomba só será desarmada quando tivermos, novamente, menos de mil casos”, alerta.

Outra tendência preocupante é a que diz respeito à faixa etária que tem falecido em decorrência da doença. Embora a mais prevalente ainda seja a de pessoas acima dos 60 anos, das 38 vítimas do coronavírus que perderam a vida durante o mês de junho em Passo Fundo, 15 tinham idades entre 29 e 59 anos. “À medida que avança a vacinação, eu percebo uma redução na participação de idosos no índice de óbitos, mas ainda temos várias nuances nas UTIs de Passo Fundo. Vemos pessoas que já deveriam ter feito a vacina e não fizeram e, também, pessoas jovens. A doença vem se manifestando de forma bastante aguda em grupos populacionais que não gostaríamos que estivessem passando por isso”, Luiz Artur analisa.


Vacinação avança, mas ainda não alcança patamar ideal

Os números de óbitos por coronavírus contrastam, em um primeiro momento, ao avanço da vacinação em Passo Fundo. De acordo com o Município, de janeiro até esta segunda-feira (14), mais de 77 mil pessoas foram vacinadas com a primeira dose em Passo Fundo. O número representa um índice de 34% de cobertura vacinal no município. “Inicialmente, nós temos números bem interessantes de vacinação em comparação com outras cidades, é uma das melhores coberturas do Estado, mas essa vacinação ainda está bem longe de índices de segurança. Nós só vamos ter segurança, baseado na vacina, quando tivermos cerca de 140 mil pessoas vacinadas com as duas doses”, afirma o médico. Para ele, o único enfrentamento efetivo da pandemia neste momento é o casamento entre números mais expressivos de vacinação e medidas mais restritivas.

O prefeito de Passo Fundo, Pedro Almeida, afirma que a ampliação da cobertura vacinal sempre esteve na pauta prioritária da Administração, que tem buscado ativamente remessas expressivas do imunizante, mas faz um alerta sobre cenários que tendem a se repetir quando as flexibilizações no funcionamento das atividades econômicas não são acompanhadas de medidas de prevenção e conscientização das pessoas. “Observamos que há períodos em que os casos crescem muito, tanto em volume quanto em velocidade e em necessidade de hospitalização. É o que ocorreu, por exemplo, em março e voltou a acontecer agora. Por isso, reforçamos que a prevenção é uma ferramenta que não deve ser ignorada. O cuidado individual e as ações coletivas devem andar juntas, porque os reflexos da falta de atenção com o uso da máscara e do álcool em gel, somadas às aglomerações, são sentidos por todos”, adverte Pedro.


Gabinete de Crise reforça alerta

Por determinação do governador Eduardo Leite, na última sexta-feira (11), a região de Passo Fundo chegou a ser convocada para uma reunião de alinhamento a respeito das medidas de enfrentamento à pandemia dentro do Sistema 3As de Monitoramento, que estariam sendo insuficientes para frear o contágio até o momento. A região está em Alerta desde o dia 18 de maio e tem tido essa classificação reforçada pelo Gabinete de Crise semanalmente, diante do agravamento na situação da pandemia. Conforme o setor técnico do governo, a região de Passo Fundo tem a maior incidência de novos casos e a terceira mais alta taxa de mortalidade entre as 21 regiões Covid.


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