A rede municipal de saúde mental de Passo Fundo realiza, em média, cerca de 5 mil atendimentos por mês. Os dados foram apresentados pela enfermeira Valéria Pereira, do Núcleo de Saúde Mental, e consideram os serviços especializados, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), além dos atendimentos realizados na Atenção Primária à Saúde.
Entre as principais demandas estão casos de depressão, ansiedade, transtornos relacionados ao uso de álcool e outras drogas, além de situações de sofrimento psíquico associadas a questões familiares e sociais. Somente em 2025, foram registrados 9.444 atendimentos médicos relacionados a transtornos de ansiedade e depressão. O número não representa, porém, a totalidade das ações realizadas pela rede, que também inclui acolhimentos de enfermagem, atividades coletivas, acompanhamento familiar e outras formas de cuidado.
Demanda envolve diferentes faixas etárias
Segundo Valéria, o perfil das pessoas atendidas é diversificado e inclui desde crianças até idosos. Entre o público infantil, uma das demandas observadas é a procura por avaliação e acompanhamento de casos de TDAH. A avaliação considera aspectos que vão além dos sintomas, como alimentação e hábitos relacionados ao uso de telas, tanto para a análise diagnóstica quanto para a definição do tratamento.
Entre adolescentes e adultos jovens, os quadros de ansiedade aparecem com frequência. Já entre a população idosa, são comuns situações relacionadas à solidão, ao afastamento das atividades profissionais, à fragilização da rede de apoio e à necessidade de fortalecer os vínculos sociais.
A enfermeira destaca que a avaliação da saúde mental precisa considerar o contexto em que cada pessoa está inserida. Vulnerabilidade social, conflitos familiares, violência, experiências traumáticas, relacionamentos abusivos, dificuldades econômicas, condições precárias de moradia e trabalho e isolamento social podem contribuir para o surgimento ou agravamento do sofrimento psíquico.
Álcool também é preocupação
Outro ponto destacado é o consumo de álcool e sua relação com problemas sociais e de saúde. Dados do DetranRS apontam que, entre 2018 e 2021, 6.377 pessoas morreram em acidentes de trânsito no Rio Grande do Sul. Entre os 3.589 condutores de automóveis e motocicletas que morreram no período, 73% apresentaram resultado positivo para alcoolemia.
O acesso ao tratamento de pessoas com dependência de álcool, entretanto, enfrenta dificuldades. Uma delas é o reconhecimento da própria condição, já que o consumo de bebidas alcoólicas é amplamente aceito em situações sociais. Em muitos casos, a procura por atendimento ocorre somente depois que o consumo passa a provocar impactos na vida familiar, nas relações interpessoais, na saúde ou problemas sociais e legais.
Segundo o núcleo, a família, a rede comunitária e até o sistema de Justiça podem ser responsáveis pelo primeiro encaminhamento para os serviços de saúde. Dessa forma, nem sempre a busca pelo tratamento parte diretamente da pessoa que apresenta o problema.
CAPS tem 2 mil cadastros ativos
Em Passo Fundo, a Atenção Primária acompanha, em média, 300 pessoas por mês relacionadas a casos de dependência de álcool e complicações clínicas provocadas pelo consumo da substância. Nas Unidades Básicas de Saúde, são oferecidos acolhimento, escuta qualificada, orientação aos familiares e encaminhamento para serviços especializados quando necessário.
Já o CAPS Álcool e Drogas possui aproximadamente 2 mil cadastros ativos e funciona em regime de porta aberta para adultos com transtornos relacionados ao uso de álcool e outras drogas. O serviço oferece atendimentos individuais, grupos terapêuticos, oficinas, atividades voltadas à reinserção social e suporte aos familiares.
O CAPS AD também realiza o chamado matriciamento com a Atenção Primária. A estratégia permite a troca de conhecimentos entre profissionais dos serviços especializados e das UBSs, inclusive por meio de interconsultas conjuntas, para que os casos possam ser acompanhados de maneira compartilhada.
Cuidado vai além dos sintomas
Para Valéria, a demanda por saúde mental muitas vezes representa apenas a parte mais visível de uma situação mais ampla. Sintomas como ansiedade, depressão, alterações de comportamento, dificuldades de aprendizagem e uso prejudicial de substâncias podem estar relacionados às condições familiares, sociais e econômicas em que a pessoa vive.
Por isso, o tratamento não deve se limitar ao controle dos sintomas por meio de medicamentos ou psicoterapia. A proposta envolve compreender os fatores que produzem ou agravam o sofrimento e articular o atendimento entre diferentes áreas, como Saúde, Assistência Social, Educação, Justiça e os serviços de garantia de direitos.
Esse cenário também ajuda a explicar por que muitos tratamentos em saúde mental são prolongados. A recuperação nem sempre significa o desaparecimento imediato de todos os sintomas, mas pode envolver redução do sofrimento, melhora na rotina, fortalecimento da autonomia, ampliação da rede de apoio e prevenção de novos agravamentos.


