As lavouras de inverno da região de Passo Fundo atravessam um momento de apreensão. Após o elevado volume de chuva registrado na semana passada, produtores rurais acompanham com preocupação a previsão de novas precipitações, temendo impactos no desenvolvimento das principais culturas da estação: o trigo e a canola.
A MetSul divulgou alerta de que o fenômeno El Niño pode trazer, no fim de semana, a primeira onda de temporais de 2026 com previsão de acumulados entre 100 e 200 milímetros, especialmente no norte gaúcho.
De acordo com o gerente regional da Emater/RS-Ascar, Oliberto Adami, ainda é cedo para mensurar possíveis perdas, mas os primeiros reflexos já são percebidos em diversas propriedades, especialmente nas áreas que estavam em fase de germinação.
Culturas estão em desenvolvimento inicial
Segundo Adami, a maior parte das lavouras de trigo encontra-se em desenvolvimento vegetativo, enquanto as áreas semeadas mais recentemente ainda passam pelo processo de germinação. A canola apresenta situação semelhante, com todas as áreas ainda em fase vegetativa e sem registro de lavouras em floração.
O gerente destaca que o comportamento das culturas neste momento é determinante para o restante do ciclo, já que as plantas ainda estão em fase de estabelecimento no campo.
Canola registra crescimento histórico
Um dos destaques da safra de inverno é a expansão da canola na região. Neste ano, a cultura ocupa cerca de 35 mil hectares, um crescimento expressivo em relação aos aproximadamente 6 mil hectares cultivados no ano passado.
O avanço da oleaginosa ocorreu principalmente devido à redução da área destinada ao trigo. Conforme a Emater, o cereal passou de cerca de 78 mil hectares cultivados para um patamar significativamente menor nesta safra, reflexo da baixa rentabilidade e dos altos custos de produção.
Segundo Adami, a canola tornou-se uma alternativa mais atrativa economicamente, já que, em muitos casos, os produtores firmam contratos antecipados com empresas que fornecem sementes, insumos e garantem a compra da produção.
Chuvas já provocam problemas no campo
Embora ainda não seja possível calcular prejuízos, o excesso de chuva registrado na última semana já deixou marcas nas lavouras. Em alguns municípios da região, os acumulados chegaram a variar entre 250 e 300 milímetros, provocando erosão, encharcamento do solo e dificuldades na implantação das culturas.
As áreas de canola em fase inicial foram algumas das mais afetadas pelo escorrimento superficial da água. No trigo, as maiores dificuldades ocorreram nas lavouras recém-semeadas, onde houve problemas na germinação e redução do estande de plantas. As lavouras implantadas mais cedo apresentaram melhor comportamento, pois o desenvolvimento inicial das plantas contribuiu para proteger o solo e reduzir os efeitos da erosão.
Previsão mantém produtores em alerta
Se os danos atuais ainda estão sendo avaliados, a maior preocupação está voltada para os próximos dias. A previsão de novas chuvas mantém os agricultores em estado de atenção.
Segundo Oliberto Adami, as culturas de inverno se desenvolvem melhor sob condições de precipitações regulares, alternadas com períodos de tempo seco e frio. Eventos de chuva intensa em curto espaço de tempo dificultam a infiltração da água no solo e favorecem processos erosivos, prejudicando principalmente as plantas ainda em fase de estabelecimento. "O solo não consegue absorver grandes volumes de água em pouco tempo, e isso acaba causando problemas para as lavouras", explica.
Temperaturas baixas favorecem as lavouras
Ao contrário das chuvas, a queda nas temperaturas registrada neste período não representa preocupação para os produtores.
De acordo com a Emater, o frio favorece o desenvolvimento inicial do trigo, que está entrando na fase de perfilhamento, quando ocorre a formação de novos colmos responsáveis pelo potencial produtivo da cultura.
As oscilações de temperatura passam a preocupar apenas em fases mais avançadas do ciclo, principalmente durante a floração, quando geadas e elevada umidade podem favorecer doenças e comprometer a formação dos grãos.
Cenário econômico amplia a preocupação
Além das incertezas climáticas, o produtor enfrenta dificuldades econômicas. Conforme Adami, os elevados custos de produção e os preços pouco atrativos do trigo reduziram significativamente a área cultivada nesta safra.
Muitos agricultores mantiveram o plantio apenas por tradição, utilizando um nível tecnológico menor para reduzir despesas, o que também pode limitar o potencial produtivo.
Na canola, o cenário econômico é mais favorável, fator que explica a forte expansão da cultura. Ainda assim, o gerente regional alerta que a oleaginosa é extremamente sensível ao excesso de chuva, principalmente durante a floração e a colheita. Caso a previsão de precipitações acima da média se confirme ao longo dos próximos meses, o potencial de produtividade e rentabilidade também poderá ser comprometido.
Safra dependerá do comportamento do clima
Embora o desenvolvimento das lavouras ainda esteja em estágio inicial, a avaliação da Emater é de que as próximas semanas serão decisivas para o desempenho da safra de inverno na região de Passo Fundo.
Sem perdas consolidadas até o momento, os produtores acompanham diariamente as previsões meteorológicas, na expectativa de que o clima permita o estabelecimento das lavouras e reduza os riscos para duas das principais culturas cultivadas no inverno gaúcho.



