O mercado de combustíveis vive um momento de atenção em todo o país, com reflexos também no Rio Grande do Sul. A Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), vinculada ao Ministério da Justiça, encaminhou nesta semana um ofício ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) solicitando investigação sobre os recentes aumentos nos preços registrados em postos de diferentes estados, entre eles o Rio Grande do Sul.
O pedido foi feito após representantes do setor apontarem que distribuidoras estariam elevando os valores de venda aos postos, mesmo sem anúncio recente de reajuste por parte da Petrobras nas refinarias. O argumento apresentado seria o impacto do aumento no preço internacional do petróleo, associado às tensões e conflitos no Oriente Médio.
No estado, o Sindicato do Comércio Varejista de Combustíveis e de Lojas de Conveniência (Sulpetro) afirma que acompanha o cenário com atenção e destaca que, até o momento, não há registro de desabastecimento generalizado. O presidente da entidade, João Carlos Dal’Aqua, explica que o que ocorre atualmente é uma restrição na oferta por parte das distribuidoras.
Cautela
Segundo ele, as empresas têm adotado uma postura mais cautelosa na liberação de seus estoques enquanto avaliam o comportamento do mercado. “Não há desabastecimento. O que nós temos é uma restrição, porque as distribuidoras estão vendendo de forma mais gradual. Elas não estão liberando os estoques com tanta velocidade justamente porque também vivem um momento de incerteza sobre os próximos movimentos do mercado”, afirmou.
Dal’Aqua explica que, paralelamente a esse cenário, as distribuidoras já começaram a repassar novos custos aos postos de combustíveis. No entanto, esse movimento não ocorre de maneira uniforme, já que cada empresa adota políticas próprias de comercialização. “Já existem custos novos sendo repassados aos postos, isso é uma realidade. Mas cada distribuidora tem sua forma de trabalhar. Não há um padrão claro sobre valores ou prazos desses repasses”, destacou.
Relação contratual
Outro fator que influencia a distribuição do combustível envolve a relação contratual entre postos e distribuidoras. De acordo com o presidente do Sulpetro, estabelecimentos que possuem contratos formais costumam ter prioridade no fornecimento. Com isso, postos sem vínculo contratual podem enfrentar mais dificuldades para garantir a reposição dos estoques. “As distribuidoras normalmente dão prioridade aos postos contratados. Aqueles que não têm contrato acabam ficando no final da fila, assim como outros compradores que dependem do mercado spot”, explicou.
Além disso, Dal’Aqua observa que oscilações na demanda também podem gerar descompassos temporários entre pedidos e entregas. Em situações em que a procura aumenta de forma repentina, os volumes solicitados pelos postos podem ultrapassar a capacidade imediata de fornecimento das distribuidoras. “Se um posto costuma vender dez e, de repente, passa a pedir vinte, ele provavelmente não vai receber esse volume imediatamente. Isso pode fazer com que, em alguns momentos, uma bomba fique parada por falta de produto, e o consumidor acabe interpretando isso como desabastecimento”, afirmou.
Segundo o dirigente, esse tipo de situação pode ocorrer de forma pontual, mas não caracteriza uma falta generalizada de combustíveis no estado. O cenário também é influenciado pelo comportamento do mercado internacional. Dal’Aqua ressalta que o custo do barril de petróleo registrou forte elevação nas últimas semanas, o que tende a impactar toda a cadeia de produção e distribuição de combustíveis. “Nós tivemos um aumento de quase 50% no custo do barril. É natural que um movimento dessa magnitude tenha reflexos ao longo da cadeia do setor”, declarou.
Diante desse contexto, o presidente do Sulpetro defende que o momento exige acompanhamento atento por parte do setor e também da sociedade. Para ele, a transparência nas informações e o monitoramento do mercado são fundamentais para evitar interpretações equivocadas sobre a situação. “É importante que todos acompanhem esse cenário com calma e prudência. Ainda existe muita indefinição sobre como o mercado vai se comportar nas próximas semanas. O que sabemos é que hoje há um ambiente de incerteza e que as decisões estão sendo tomadas com bastante cautela”, concluiu.


