OPINIÃO

Fantasma

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Na minha infância durante bom tempo meu super-herói preferido era O Fantasma (o espírito que anda), criação de Lee Falk,1936. Era mais preferido que Batman, Zorro, Cavaleiro Negro ou Buck Jones. Que fantasma não atrai o interesse de crianças-adolescentes? Lembro que tinha medo de Mancha Negra mas, não de João Bafo-de-Onça. Mancha Negra era só mistério e João, não. Todos conhecíamos alguém obeso, bochechudo e com a barba por fazer, além do bafo, é claro. Mistério traz medo, como assim acontecia nos primeiros anos de Scooby-Doo.

O técnico reúne a turma e fala o discurso motivacional do momento: chegou a hora de separarmos os homens dos meninos. Em outras palavras: saberemos quem é de encarar e quem vai tremer a perna. Hora dos homens sepultarem os fantasmas, todos aqueles que amedrontavam a cabeça e a alma da gente.

Meus fantasmas me perseguiram até os 25-26 anos e senti a necessidade da migração de menino a homem. Por que o fantasma estabelece conflitos entre o que se tem e o que se deseja, entre o que se diz e o que se faz, entre o que é e o que quer vir a ser. Era chegada a idade de exorcizar os demônios e estabelecer que a vida não poderia ser palco de conflitos permanentes. Mais do que apagar o incêndio da nebulosidade de objetivos era preciso decidir que tipo de vida serviria dali em diante.

A adolescência, que não se sabe onde começa e termina, estabelece licenciosidade para navegarmos como uma onda e bater contra todos os rochedos delimitantes. E estes causam revolta porque há revolta quando o adolescente tem seus preitos represados. Revolta gera conflito, que gera ojeriza e mágoa e atos impensados.

A madurez começa com a morte de alguns fantasmas, não todos porque alguns de maneira insistente continuarão a atormentar nossas noites insones. Na madurez aprendemos a tergiversar, a contemporizar, a procrastinar e aprendemos a dançar com o bambolê. Um adolescente pode saber exatamente o que fazer em determinada situação; um homem feito deve saber o que fazer, essa é a diferença.

Eu apreciava o fantasmas e o Fantasma mas, um dia era hora de fechar os gibis e encarar a vida sobretudo ter a clara percepção de a vida que viria dependia de cada um, do pensamento e conduta de cada um. Todos querem ser felizes. Não há, no entanto, outra estrada para a felicidade que a estrada da paz. A gente pode plantar a paz e com ela enraizada podemos sonhar em sermos felizes. Paz vem a resolução dos fantasmas, com a administração dos conflitos. Quando isso for conquistado saberemos que estamos em estado de homem, talvez não mais felizes que antes mas, seguramente mais perto da paz.

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