Crianças indígenas reforçam costumes na escola

Durante duas semanas, foram trabalhadas aulas de dança, idioma, trato com plantas medicinais, culinária e discussões sobre a importância de preservar a identidade e estimular a autoestima

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“O que vocês querem para a cultura de vocês?”, questiona a professora Elisangela Rizzotto. “Respeito”, respondem, em coro, cerca de 20 crianças e adolescentes indígenas, na manhã de terça-feira, dia 9, momento antes de ir repassar a dança em kaingang no prédio da Ceasa. O ensaio era para a apresentação que eles farão no próximo sábado (20). No local, haverá uma festa que reunirá integrantes de reservas de toda região. Será um momento de celebrar e preservar a cultura indígena. Além de danças e cantos, haverá pratos típicos e outras demonstrações artísticas da etnia. 

 

O grupo de alunos e as professoras estavam com os rostos pintados com figuras geométricas para recepcionar a reportagem de ON. Segundo explicação da professora de dança Luana Paulo, integrante da comunidade, as formas representam características físicas. Um dos desenhos, por exemplo, significava mulher baixa. As pinturas, danças e cantos integraram uma programação especial da Escola Fag Nor, que fica em assentamento às margens da BR 285. No local, por um tempo, funcionou uma filial da Central de Abastecimento do Rio Grande do Sul (Ceasa), mas o prédio estava abandonado antes dos índios ocuparem a área.
Eles vieram de outras reservas da região, onde há conflitos indígenas. Com o passar do tempo, o prédio perdeu o telhado. A estrutura, que só possui as paredes, hoje foi transformada em uma quadra de esportes. Esse é o espaço utilizado pelos alunos para ensaiar as danças.

 

Após orientações de Luana, eles se organizam em duas fileiras: meninas de um lado, meninos do outro. Com uma música em kaingang, eles apresentam o que segundo Luana, é uma coreografia de apresentação dos povos, executada em ocasiões especiais, como é o caso da festa. Em seguida, outra canção. Desta vez, em português: “Onde existem os índios ainda tem a mata. Os brancos que chegaram, já destruíram. [...] Somos índios e somos donos essa mata. Queremos coisas naturais, para ver nossos filhos aprender. Somos índios e somos donos essa mata. Queremos coisas naturais, para ver nossos filhos aprender”.


Desde o dia 8 de abril, os alunos aprenderam na teoria o que já vivenciam na prática. Naquele dia (9), a aula era sobre dança. No dia anterior, haviam trabalhado sobre a importância de preservar a cultura e manter as tradições indígenas vivas. De acordo com Elisangela, um dos principais objetivos das atividades, realizadas no mês que se celebra o Dia do Índio (19 de abril), era trabalhar a autoestima dos alunos – cujos povos são marginalizados e estigmatizados socialmente – e de estimular o “orgulho de ser índio”.


A grade de aula ainda incluía culinária, a riqueza e sabedoria dos povos acerca das plantas medicinais, além da recuperação de outros costumes. Uma vez por semana, os alunos têm aula de língua kaingang, onde aprendem, sobretudo, a escrever no idioma. As demais disciplinas são ministradas em português.


A estrutura física Fag Nor é deficitária. Com somente um cômodo, há frestas nas paredes e no chão. Não há banheiro. A direção da escola conseguiu uma verba de R$ 50 mil para reformas, por meio da 7ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE). Porém, com este valor, precisam escolher entre construir uma nova escola, de material, ou fazer um banheiro. Porém, para Elisangela, as condições físicas não são empecilho para exercer a pedagogia. As atividades desenvolvidas nestas últimas duas semanas comprovam.


Projetos
Os indígenas têm o projeto de construir uma Oca na área. O objetivo é trazer pessoas de fora para mostrar a cultura e tentar desmistificar a representação errônea que parte da sociedade tem do indígena. “O preconceito é enorme. Quando tu pensas na cultura rica que eles têm e tudo que poderiam nos ensinar, seria maravilhoso se as pessoas pudessem parar e escutar. As pessoas, hoje em dia, acabam não vendo o outro. Eles acabam não vendo por trás daquele rosto, por trás daquele sorriso, por trás daquela criança a história dela e muito menos a cultura que ela tem e que ela traz”, argumenta a professora Elisangela.

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