Relógios vivos

Corrente de oração terá revezamento durante 24 horas continuas. Objetivo é lembrar o sentido cristão da Páscoa

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Era véspera da Sexta-Feira Santa e um grupo da Renovação Carismática Católica (RCC) preparava-se para, em algumas horas, dar início a vigília que uniria pelo menos 24 pessoas de hora em hora em preces por Passo Fundo e a memória da morte de Cristo.

 

A estudante Bruna, de 31 anos, é quem abriria essas 24 horas de oração, pela primeira vez organizada para a Páscoa. Às 17h tentaria ir a uma igreja onde, até às 18h, permaneceria reverente, com o terço em mãos, para "aliviar o sofrimento de Jesus". "É para fazer companhia a Jesus", sentencia ao telefone, minutos após às 15h, enquanto se arrumava para sair de casa. No pescoço mantinha atado o escapulário, a medalha de Nossa Senhora das Graças e de São Bento, "o pai dos monges". O terço seria pego quando saísse de casa. Eventualmente o leva, já que tem por hábito, em longas caminhadas, estar em oração.

 

Mas na quinta-feira (18) o usaria. Há semanas, um grupo da Paróquia São José, incitados por uma ideia da laboratorista Taymara Aparecida Bonissoni, de 46 anos, lançou o desafio de se unirem em 24 horas de oração. Seria difícil unir os fieis em um único local durante esse período, por isso, inspirados em um texto que, acreditam, foi escrito por Luísa Piccarreta a partir de revelações que o próprio Cristo deu a ela antes de sua morte, o tomaram para organizar os relógios vivos.

 

"Seguimos esta santa, que na verdade não é uma santa reconhecida pela igreja", explica Bruna "É uma mística da igreja italiana que recebia a visita de Jesus e Jesus passou para ela as visões de tudo o que passaria durante as 24 horas que antecederam sua morte e o porquê. Isso vai muito além do que está na Bíblia. Então a meditação começa às 17h que é o momento em que ele se despede da sua mãe e dos apóstolos!'

 

A cada hora há um tipo de sofrimento ao qual Jesus foi submetido. "E Jesus passou para essa mística da igreja todos esses momentos", completa Bruna. Por isso das 17h de quinta-feira às 17h de sexta-feira, cerca de 30 pessoas se unirão em oração. A cada hora uma delas ficará responsável pelos mo-mentos de reverência, criando uma corrente ininterrupta de preces.


"Momento de conversão"
Bruna se compadece. "O início da Sexta-Feira Santa, a Quinta-Feira Santa, para mim, é um momento de reflexão. Um momento de conversão. De voltar a olhar para mim e ver o que preciso mudar. Porque vejo o que Jesus passou da morte à ressurreição, e isso me faz lembrar que aqui não é o fim. E isso é o que me faz lutar por saber que há algo a mais.'

 

Batizada na Igreja Católica ainda na infância, disse que só há quatro anos é que se voltou com fé à religião. "Antes era uma católica morna", define. Uma católica morna, explica, é aquela que vivia da forma como vivia antes: frequentando a igreja, mas não se envolvendo verdadeiramente com seus credos e crenças.

 

Foi quando sentiu as barreiras da vida tornarem-se muralhas que experimentou a conversão. "Quando começaram a bater realmente as dificuldades na minha vida eu percebi que não iria adiante na minha vida se eu não me apegasse a Jesus e a Nossa Senhora Aparecida, porque são muitas dificuldades." As dificuldades estavam nos estudos, na família, no casamento e nos temores da mente.

 

Seu marido, com quem está casada há quatro anos, também é católico, mas não compartilha da intensa fé que carrega. Isso, diz, foi uma das barreiras que buscou contornar em oração. "Porque ele não queria, ele não entendia o porquê eu precisava sair de casa para rezar, o porquê eu precisava ira uma Santa Missa

 

Ele não compreendia. No pensamento dele bastava rezar em casa e deu. Mas hoje, depois desses anos, ele entende o quanto isso faz bem pra mim e fez bem pro nosso casamento. Porque desde então eu mudei muito. Eu melhorei como filha, eu melhorei como esposa, e tento melhorar a cada dia. Tudo é graças a Deus. "Ele não irá participar com ela das 24 horas de oração. O que não a machuca. Pois sua mãe, que mora no município de Planalto, irá. Mesmo distante se conectará em oração com a corrente ininterrupta, reservando ao menos uma hora.

 

Mesmo jovem, Bruna não se vê mais longe do que acredita. Sua voz doce que reverbera palavras assertivas esboçam a certeza de que, embora a tradição religiosa tenha se perdido em muitos jovens e até adultos descrentes, esta fé é real. Com respeito a figura do Cristo crucificado, é que tenta levar isso durante toda a quaresma, fazendo pequenos sacrifícios. As abdicações são em me-mória a morte de Jesus.

 

Na fé cristã, a morte cruel do Cristo foi causada pelos pesos dos pecados da humanidade. "Que continuam a crucificá-lo", diz Bruna. "Como? Pelos pecados em geral. As heresias. O pessoal que não tem mais fé, que não acredita nele. Tem tanta matança, o aborto, as famílias sendo destruídas, separação entre casais, os jovens voltando com as drogas, o suicídio, a depressão... tantas coisas que a humanidade foi levando a ser porque não cumpriram o evangelho."

 

Madrugada de oração

Na sala à esquerda da recepção de uma empresa de venda de agrotóxicos de Passo Fundo, o supervisor administrativo Carlos Alberto de Luz Junior, de 37 anos, rememora as ideias defendidas pela estudante. "Mas cada um tem seu livre arbítrio e escolhe o que fazer com ele", aponta Junior.

 

No canto direito de sua mesa se vê uma grande Bíblia de capa azul. Ela não é o único símbolo sacro. Diante do computador e, em miniatura, estão três santas e um crucifixo colado no suporte de tela. Conforme fala, também deixa aparecer abaixo da manga direita da camisa uma medalhinha. Um dos itens à mesa foi presenteado pelos próprios colegas de trabalho de Junior, que sabem de sua fé e de como a segue a risca.

 

Não à toa, permitiram que ele deixasse na recepção outra miniatura de Nossa Senhora Aparecida, ao lado de um copo com rosas vermelhas e uma cruz. Todos sobre uma pequena toalha branca com um delicado crochê branco nas bordas. Isso porque Junior faz do próprio local de trabalho um local de oração. Não uma vez utilizou minutos vagos para retirar da gaveta ao lado direito um dos cadernos em que anota intenções, pedidos e agradecimentos que levanta em prece. Tem outro caderno também. Neste, estão nomes daqueles por quem intercede.

 

Católico "desde o ventre" de sua mãe, ele se conectará à vigília entre as 3h e 4h da Sexta-Feira Santa.

 

É na madrugada em que Junior gosta de se curvar em oração. Em um altar em casa, não uma vez, teve as preces acompanhadas pela esposa e também pelos filhos - são cinco. Com sua esposa, quem conheceu há 18 anos em uma Casa de Oração e com quem se casou há 15, leva uma vida de devoção. Por dois anos, entre 2004 e 2006, largou Passo Fundo e foi a capital paulista, São Paulo, para ser missionário em uns albergue.

 

Ali vivia de "providência". Na mesma medida em que eram ajudados, ajudavam os cerca de mil moradores de rua que passaram pela casa de acolhimento durante os dois anos em que estiveram lá.

 

"Dentro da Igreja Católica busco viver os sacramentos que a igreja me ensina", define Junior. "E diante desta semana que estamos vivendo, que é a Semana Santa, é um momento muito importante para nós. Que é um momento em que toda a fraqueza cristã é colocada aos pés de Jesus Cristo. Então a demonstração que ele nos traz diante do peso da cruz é a fidelidade. Mesmo no sofrimento eu sou fiel ao meu salvador, aquele que me ama, me aguarda e me vigia. Então a Semana Santa é viver essa fidelidade com Deus. É olhar para Deus e não olhar para mais nenhum lugar e saber que ele é o provedor de todas as coisas. Pois é Deus que provê todas as necessidades através do Espírito Santo, de Nossa Senhora Aparecida, que ficou aos pés da cruz, e da fidelidade de João, o discípulo amado."

 

Durante a quaresma os ritos se intensificam em, jejuns e atividades que andem ao lado desta demonstração de fidelidade. O próprio jejum da carne vermelha adotado, normalmente, na Sexta-Feira Santa, é consequência dos significados atrelados a este tipo de alimento. "É que naquela época a carne vermelha era uma carne utilizada para festas. Tinha mais sabor e por isso estava relacionada a um momento de felicidade. Enquanto o peixe não. Por isso nesse momento se come peixe", explica Junior. Outros fieis, contextualiza, optam por jejuns de refrigerantes ou de evitar certas atividades que outrora eram costumeiras.

 

Pelas horas da Sexta-Feira Santa e durante a vigília, Junior disse que intercederá pelo Papa Francisco e por toda a cidade de Passo Fundo. Por orações como esta é que conta a história de uma mulher que sofria de depressão. "Oramos por ela. Ela estava quase cometendo suicídio e hoje, em tratamento e com fé, ora conosco?

 

"Sou um milagre vivo"
Taymara Aparecida Bonissoni, que organizou a vigília, tornando-a uma realidade, orará das 6h às 7h de sexta-feira. Horário que, segundo ela, Jesus foi levado de Caifás a Pilatos na história. "E farei com pro-funda adoração, no silêncio de meu quarto", aponta. Ela se chama de "um milagre vivo", já que recentemente disse ter recebido a cura de uma doença a partir da eucaristia - cerimônia conduzida pelo padre em que são entregues simulacros do "corpo" e "sangue" de Jesus por meio de pão e vinho.

 

Também católica desde a infância, defende a Semana Santa e justifica que as abdicações do período são sofrimentos pequenos quando comparados ao do Cristo. "Durante a quaresma devemos seguir o itinerário que a igreja nos propõe para sairmos da escravidão do pecado, da miséria e chegarmos ao amor de Deus. Assim, para mortificar isso, a igreja nos propõe o jejum, com a finalidade de repreender nossas tendências egoístas. Ou seja, o jejum, é deixar de ser movido pelo egoísta, passando a ser movido pelo Espírito Santo. Mas, para isso preciso da oração, por que a oração abre o coração para ser movido pela Graça de Deus. Eu procuro seguir esses ensinamentos jejuando, me privando de alimentos que gosto muito (queijo, doces, chimarrão...) e não comendo carne às sextas-feiras, não apenas na quaresma como nos pede a santa igreja", aponta.

 

Compartilhando do mesmo pensamento e fé reverberado em palavras que se cruzam com cada realidade, o grupo busca manter vivo o sentido cristão da Páscoa. Ainda que para alguns a tradição seja esquecida ou tenha sido apagada, na vida desse grupo ela persistirá toda Páscoa. Na Páscoa que não tem gosto de chocolates, mas da paixão de Cristo.

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