OPINIÃO

A imprensa passo-fundense e as relações de poder local

Por
· 2 min de leitura
Você prefere ouvir essa matéria?

Em Passo Fundo, no ano de 1947, assim como no restante do Brasil, já havia ocorrido a reorganização das forças políticas elevando os partidos de cunho regional para nacional, a exemplo do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), PSD (Partido Social Democrático) e MTR (Movimento Trabalhista Renovador). A diretriz do jornal Diário da Manhã (DM), com relação aos tradicionais políticos locais que constituíam a base PSD e o posicionamento do O Nacional (ON) com relação aos dissidentes trabalhistas locais, permitiram perceber o posicionamento de cada jornal com relação à política partidária.

 

Tanto o DM – de Túlio Fontoura - quanto o ON – de Múcio de Castro - possuíam proprietários ativos na vida política, com preferências partidárias e candidaturas a funções públicas. Por esta representatividade, nos centramos nas notícias para contagem dos nomes mais representativos nas páginas destes dois jornais, cientes das motivações que os levavam à publicidade nos mesmos, marcando estes sujeitos como os mais citados pela imprensa.


Nove nomes foram mais recorrentes nas 5049 edições analisadas do ON e nas 4079 edições do DM. A diferença de recorrência em um impresso e outro ficam bastante explícitas quando observamos os nomes de Benoni Rosado (ON 32%, DM 68%), Daniel Dipp (ON 80%, DM 20%), Mário Menegaz (ON 90%, DM 10%), Múcio de Castro (ON 100%, DM 0%), Nicolau Araújo Vergueiro (ON 12%, DM 88%), Túlio Fontoura (ON 0,5%, DM 99,5%) e Wolmar Salton (ON 75%, DM 25%). Ela é relativa apenas quando se tratam de Armando Araújo Annes (ON 53%, DM 47%) e César José Santos (ON 46%, DM 54%).


A maior parte destes sujeitos teve destacada representação política de 1947-1964: Armando Annes foi prefeito em 1947; Nicolau Vergueiro foi suplente de deputado federal em 1950; César Santos foi deputado estadual em 1947 e deputado federal em 1950; Daniel Dipp foi vice-prefeito em 1947, Deputado estadual em 1951, prefeito em 1952, deputado federal em 1954 e 1958, candidato a vice-prefeito em 1960 e suplente de deputado federal em 1963; Benoni Rosado foi vice-prefeito em 1956 e prefeito em 1960; Wolmar Salton foi vereador em 1947 e 1951 e prefeito em 1956; Mário Menegaz foi vice-prefeito em 1951, prefeito em 1955, candidato a prefeito em 1960 e prefeito em 1964; Túlio Fontoura foi candidato a vereador em 1951; Múcio de Castro foi deputado estadual em 1954.


Desta lista, temos duas linhas políticas herdeiras do coronel Gervásio Lucas Annes: Armando Araújo Annes (filho) e Nicolau Araújo Vergueiro (sobrinho). Se fossemos relacionar os nove sujeitos em uma relação sucessória – considerando a influência para ingresso na vida pública de ambas vertentes, teríamos a seguinte representação: Nicolau Vergueiro (Túlio Fontoura); Armando Annes (Múcio de Castro, Wolmar Salton, Daniel Dipp, Benoni Rosado e Mário Menegaz).


Nota-se que o único fora desta relação é César Santos, pois seu ingresso na política se deu em 1940 e um pouco diferente dos demais. César Santos fundou o PTB em 1945, permanecendo como presidente por 15 anos. Com o falecimento de Nicolau Araújo Vergueiro, em 1956, e com a ruptura interna do PTB em 1958, este organograma sofreu alteração vinculando Túlio Fontoura a César Santos. Nesta reconfiguração, o quadro político se apresentou da seguinte maneira: César Santos (Túlio Fontoura), Daniel Dipp (Mário Menegaz, Múcio de Castro, Wolmar Salton e Benoni Rosado).


Estas estruturas mantiveram-se em constante transição até 1964, motivo pelo qual é necessário perceber a formação partidária destes sujeitos, a fim de entender as representações de poder inseridas nas páginas dos impressos. O posicionamento político-partidário de Múcio de Castro e de Túlio Fontoura permitiram a observação da imprensa enquanto uma forma simbólica de atuação pelos partidários políticos do PSD, PTB e MTR.

 

Gabriela Tosta Goulart
Doutoranda em História PPGH/UPF

Gostou? Compartilhe