"Esse espaço da internet não é terra de ninguém"

Jornalista e ex-candidata à vice-presidência da República, nas eleições gerais do ano passado, Manuela D´Ávila palestrou na UPF

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A multidão se estreitava no auditório da Biblioteca Central da Universidade de Passo Fundo (UPF), na noite de quinta-feira (12), quando a jornalista e ex-candidata à vice-presidência da República, nas eleições gerais do ano passado, Manuela d’Ávila (PCdoB), ligou o microfone para cumprimentar formalmente os estudantes de Jornalismo e simpatizantes que, sentados no chão ou em pé mesmo, esperavam para ouvi-la falar sobre fake news, discurso de ódio propagado na internet e sobre a pequena Laura.


A filha de Manuela, fruto do relacionamento com o músico Duca Leindecker, posava sorridente no colo da mãe em uma foto que serve como proteção de tela do celular da política brasileira e conduz as linhas gerais do livro “Revolução Laura”, um registro afetivo escrito por d’Ávila sobre os dois primeiros anos de maternidade experienciados no mesmo período em que percorria as cidades brasileiras ao lado do candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) à Presidência da República, Fernando Haddad, entre os anos de 2017 e 2018. Na camiseta que vestia, Manuela já fornecia indicativos do teor de discurso proposto. Antes, na Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), em Erechim, e na noite de quinta-feira (13), em Passo Fundo. “(Re)exista como uma mãe”, dizia os escritos. “Por causa de uma fake news, onde dizia que eu tinha ido fazer meu enxoval em Miami, minha filha apanhou com 45 dias de vida, quando eu fui acompanhar um show do Duca”, contou.


Aos 38 anos, dos quais 15 vividos na esfera pública de poder, Manuela narrou a onda de notícias falsas presentes nas redes sociais que impulsionam reações polarizadas sobre a própria figura e a de outras personalidades. “Nós devemos combater o discurso de ódio fazendo com que as pessoas reflitam sobre qual é o lugar delas naquele discurso, como elas receberiam aquelas mensagens que elas próprias emitem. Será que se, ao invés de mim, fosse com a mãe, irmã ou namorada deles, ainda assim seria engraçado?”, questionou. “A pessoa não aguenta um minuto fora do anonimato”, prosseguiu, referindo-se às mensagens ofensivas que recebe diariamente e responde, de forma privada, a alguns internautas.


Questionada pela reportagem do jornal O Nacional sobre o financiamento para impulsão dessas notícias falsas, Manuela atribuiu a rápida dispersão do conteúdo criado aos robôs, classificado por ela como “criminosos”, supostamente “financiados com dinheiro sujo”, como mencionou ainda. “Eu torço para que a CPI das Fake News [presidida pelo deputado federal Angelo Coronel (PSD/BA)] consiga identificar. Certamente tem uma articulação internacional. Nós já identificamos isso com os celulares que disparavam as fake news nos grupos de WhatsApp durante o processo eleitoral. A imensa maioria desses grupos não têm origem no Brasil. Tem muito dinheiro e existe um valor não contabilizado no ponto de vista financeiro, mas que no mundo tem um valor estratosférico que é o quanto dos nossos dados foram utilizados”, ponderou.


"Será que as pessoas gostariam de ter a intimidade vazada?”
Criado e presidido por Manuela no último pleito, o Instituto “E Se Fosse Você?” promove discussões nos espaços públicos com duas linhas de atuação no combate às informações falsas “resgatando a ideia básica de empatia” em um cenário observado por ela de pós-verdade. “Fake news não é só mentira ou desinformação. O fato em si se torna irrelevante diante de uma nova verdade que é construída, e essa nova verdade constrói uma espécie de dois espaços públicos onde as pessoas passam a lidar com duas realidades. É uma loucura. Isso é sustentado a partir do ódio porque as fake news não ficam em pé se não forem estruturadas em um ódio real, não existe um mundo virtual diferente do real”, defendeu. “Se a gente estabelece isso de se colocar no lugar do outro e tirar a pessoa do anonimato, de despertar a consciência dela de que esse espaço [internet] não é terra de ninguém, e é isso que o instituto tenta fazer, ao dialogar a partir da pergunta “e se fosse eu?”, gostaria de ter meu conteúdo compartilhado e ter a intimidade vazada?”, provocou Manuela.


A reação do público prosseguiu até que a longa fila formada para autógrafo do livro sobre a maternidade de Manuela a partir da chegada de Laura se dissipou. Além de promover o debate na UPF gratuitamente, a jornalista atravessa a cidade até a IMED, onde deve falar aos acadêmicos, na sexta-feira (13).

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