OPINIÃO

Maia em apelo à serenidade

Por
· 3 min de leitura
Você prefere ouvir essa matéria?

O presidente do Congresso, Rodrigo Maia, fez apelo e afirmação, em termos equilibrados, à tranqüilidade democrática. Isso acontece em momento afetado pelo fanatismo político de lideranças e militância aliadas ao governo que enfrentam movimentos exacerbados de oposição. A linguagem e comunicação estão à prova em limites perigosos. Os três poderes que sustentam a equação dos rumos da nação são alvos de pertinácia que ultrapassa a normalidade da crítica ameaçando a sanidade. São vários os tons de ataques aos poderes instituídos, com evidente intenção de dilapidar legitimidades. A histriônica reunião palaciana levada a público no embate entre Moro e Bolsonaro reflete excessos. Neste sentido parece prudente o pronunciamento de Rodrigo Maia, em nome do Legislativo, para restaurar o tom dos relacionamentos entre executivo, legislativo e judiciário. Não se trata de condecorar o presidente com o selo da santidade, mas é apelo formal à serenidade mínima.

Fortuito

A gravação da reunião de ministros, presidida por Bolsonaro era destinada a esclarecer a denúncia de possível ingerência indevida na Polícia Federal. O objeto da investigação ainda está em apreciação. O uso do palavrão que chocou a opinião pública parece de menor relevância na efetivação de materialidade. No máximo, o questionamento em relação ao desvelo pela liturgia oficial. Sobraram, no entanto, algumas manifestações ministeriais que ecoaram paralelamente. O ministro da Educação, Abraham Weitraub, apregoou claramente o repúdio institucional ao Supremo Tribunal, expressando-se pela prisão de seus membros. O Supremo avalia as palavras como ofensa ao órgão do poder judiciário, registrando a fala como descoberta fortuita. Abraham terá, ainda, que esclarecer seu vitupério contra índios e outras causas de segmentos da pátria.

Na sobra da pandemia

No mesmo evento oficial veio a infeliz manifestação do ministro Salles, do Meio Ambiente. Além de insensível à tragédia causada pelo coronavírus, o ministro afirma que a concentração da imprensa na pandemia oferece oportunidade para ações contra a segurança ecológica, com normas legais que podem passar despercebidas. Convenhamos, é postura grave contra a ética nas políticas públicas.

Dispersão

Pouco se viu a respeito da severa preocupação do país e do planeta, em relação às contaminações e mortes causadas pelo Covid-19. O ministro da Saúde, Nelson Teich, reconhecido como inteligência responsável, apareceu como mero espectador. Percebia-se que seus olhos corriam o ambiente ruidoso, onde tudo e mais um pouco se falava, menos da prioritária angústia do Brasil. Este é gravíssimo contexto a ser considerado na cobrança de governo onde o estado é chamado a responder.

Casos de polícia

A briga entre forças que elegeram Bolsonaro é o grande fato de oposição. O racha partidário do PSL, a saída tumultuada dos ministros Mandetta e Moro, e as acusações de rachadinha envolvendo o filho do presidente Flávio Bolsonaro não foram controladas. Ontem a Polícia Federal abriu estrondosa investigação no Palácio das Laranjeiras. Wilson Witzel está na mira policial. Ao mesmo tempo o novo defensor do governo, Roberto Jefferson, presidente do PTB, sobre busca policial para averiguações a respeito de supostas facke news. A busca atende ordem de diligências sobre agentes e patrocinadores de uma rede que espalha a violência de opinião. Toda a confusão, ao que parece, envolve apoiadores e ex-apoiadores bolsonaristas. A oposição propriamente dita está mais fora do que imersa nas denúncias. Há sangramento da direita.

Esvaziamento

Com isso tudo que está acontecendo e a adesão do centro parlamentar ao governo, os movimentos que impulsionam o impeachment restam enfraquecidos. A curva da crise parecia crescente, ascendente como o coronavírus. Ao detonar o governador Witzel, antigo aliado, o governo ganha tempo e terreno para governabilidade enferma.

Flagelo continua

Para não ofender a esperança é preciso dizer que nem tudo está perdido. A tragédia humana da doença e morte dos mais pobres teve sua urgência sucumbida pelo foco alucinado na disputa política. Vemos exemplos de sensatez entre líderes e mandatários de outros países como Argentina, Uruguai, Inglaterra, Espanha e até EUA, que superam as divergências para combater a doença. E, no Brasil, infelizmente, nem a escolha do ministro da Saúde alcançou decisão conciliatória.

Gostou? Compartilhe