OPINIÃO

Casarão

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Mais um casarão é derrubado entre a Pe. Valentim e a Lucas Araújo, ali na Presidente Vargas. Mesmo sem saber quem ali havia morado percebi um pedaço de história indo para o espaço. Lembrei da novela O Casarão, de Lauro Cesar Muniz (1976) que mostrava 3 gerações a viver histórias boas e outras nem tantas. Além de ser um sucesso teve trilha sonora internacional e nacional de cair o queixo; entre as músicas que rebentaram cito Fascinação na magia de Elis e Maggie MacNeal When You´re Gone. O Casarão teve uma das melhores cenas já exibidas na TV: a do encontro entre João Maciel (Paulo Gracindo) e Carolina (Yara Cortês) – ela pergunta “te fiz esperar muito?”; ele responde: “40 anos”. Emocionante, tocante. Mas, as crianças correndo no pátio do velho casarão em imagens esmaecidas faziam minha mãe ficar entristecida. Porque ela sabia da impermanência da vida, ela gostaria que certas coisas se eternizassem, que os filhos nunca crescessem e que ficassem ao alcance de seus olhos, que ficassem protegidos das maldades e egoísmos do mundo adulto.

Mais um casarão não resiste ao novo, vivemos o novo, precisamos do novo, o novo nem sempre novidade, nem sempre como melhor. E o velho? Bem, tem que ser substituído rapidamente como a geração google.

A extraordinária Miriê Tedesco posta considerações sobre o Muro de Berlim, aquele paredão que separava o novo do velho. Trata-se de uma vergonhosa engenhosidade do homem a separar famílias e destinos. Há em nossas vidas um muro que separa coisas boas das ruins. Muitas vezes vagamos de um lado a outro. Quando saímos do ruim para o bom sentimos a brisa do bem-estar, por exemplo quando nos recuperamos de coisas do coração. Superação, tudo de bom. Mas, muitas vezes saímos do conforto para vivermos o ruim deliberadamente e aí percebemos o quanto de legal a gente vivia sem valorizar as condições anteriores. O muro de Miriê faz considerar sobre a necessidade de valorizarmos o que de bom a gente tem e que não percebemos como tal.

Por isso mesmo estive em um encontro com dos baitas caras, Eduardo Fernandes e Rudiney Link, amigos de sempre a recordar as vivências do Cenav, das bandas em que tocamos, dos amores que vivemos. Foram 4 horas de intermináveis gargalhadas e com a sensação que os encontros têm que ser mais amiúdes. Não há muros entre verdadeiros amigos; velhos amigos têm seus corações dentro de casarões que jamais serão derrubados; amizades não envelhecem, o novo sempre é bem-vindo, mas para morar nos casarões de nossas boas memórias.

Os sonhos mais lindos, sonhei; de quimeras mil, mil castelos ergui...

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