OPINIÃO

Tributo a Humberto Maturana

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Tributo a Humberto Maturana

A morte do biólogo Humberto Maturana, ocorrida no dia 6 de maio de 2021, aos 92 anos (1928-2021), reacendeu o interesse (ou curiosidade) sobre as ideias singulares desse cientista chileno. Humberto Maturana, em biologia, transitou na zona de fronteira entre ciência e filosofia. Este neurobiologista ficou famoso pela criação, em parceria com Francisco Varela (1946-2001), da teoria da autopoiese e pelos livros que assinaram em coautoria, como “The Tree of Knowledge” e “Autopoisis and Cognition”.

Três particularidades do dia a dia dos seres vivos, mas com profundas implicações sistêmicas, ajudaram a forjar o pensamento singular de Maturana sobre biologia. São elas: (1) a natureza relacional das questões; (2) o reconhecimento de que cometemos erros; e (3) a crença na repetição dos fenômenos naturais. É notório que o entendimento desses pontos pode se dar sem maiores controvérsias. Não há como deixar de admitir que, em toda questão, há relação entre aquele que pergunta e aquele que responde. Também não podemos ignorar que não somos infalíveis, portanto somos passíveis de cometer erros. E, por mais que insistamos em negar, demonstramos, com nossas atitudes, uma forte crença na regularidade dos processos naturais.

Quando atentamos para a natureza relacional entre pergunta e resposta, não podemos deixar de perceber que quem aceita uma resposta para uma questão que tenha formulado é quem, de fato, determina que a mesma seja considerada válida. Não importa a natureza do questionamento, quem aceita a resposta define a “verdade”, o valor ou a adequação daquilo que foi aceito como tal. Isso não significa que exista algo (mesmo aceito) que seja intrinsecamente, verdadeiro, aceitável e legitimo por si próprio. O que nos leva à indagação do que entendemos por conhecimento e de qual o sentido da busca daquilo que chamamos de verdade? Quando um cientista formula uma hipótese e a submete a um teste experimental, há que se ter consciência que é o cientista que determina a validade da resposta obtida, uma vez que é dele a definição dos critérios de aceitação ou rejeição dos resultados. Ou seja, não nos é mais permitido ignorar que cabe ao observador decidir aquilo que é aceito ou não como válido.

Inegavelmente, cometemos erros. Não raro, costumamos dizer que “aprendemos com os nossos erros”. E se é assim, uma vez que temos essa benevolência com os nossos erros, porque não temos a mesma consideração para com os erros dos outros? Em geral, buscamos punir quem comete erros, seja quem for; menos nós. Isso revela uma das piores falhas do nosso comportamento. Por erro, nesta situação, entendemos aquilo que é feito, de forma honesta (não vale a mentira), em uma dada situação, e sendo considerado válido na ocasião, porém, futuramente, acaba sendo avaliado como erro, frente a outras ações possíveis. Erros, nessa concepção, não acontecem no momento que atribuímos a sua ocorrência. Erros, mais uma vez não confundir com mentira dissimulada de verdade, são determinados futuramente, quando se confrontam as ações em pauta com as alternativas que se apresentavam. Caso soubéssemos de antemão que aquilo que fizemos não era válido, não cometemos erro, e sim incorremos em mentira, em desonestidade. Em termos científicos, eis mais uma dificuldade para atribuirmos significado à “verdade”. Como podemos reivindicar que sabemos a verdade? Eis a dificuldade em aceitarmos que, efetivamente, nós não sabemos se as coisas que fazemos em um dado momento, após reflexões e outros avanços do conhecimento, não poderão vir a ser rotuladas de erros.

O mundo natural nos parece repetitivo. O que acontece uma vez tornará a acontecer, supomos. E, diferentemente do que possa parecer, no caso dos seres vivos, essa repetição é uma decorrência interna. Os agentes externos não definem o que nos acontece, embora possam dar o estímulo inicial. Nada externo a nós pode dizer qualquer coisa sobre nós mesmos. E, segundo H. Maturana, essa é uma visão que muda completamente a nossa compreensão dos processos biológicos.

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