Tertúlias na redação

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Luiz Juarez Nogueira de Azevedo é oficial do Registro de Imóveis. Foto: Arquivo pessoalLuiz Juarez Nogueira de Azevedo é oficial do Registro de Imóveis. Foto: Arquivo pessoal
Luiz Juarez Nogueira de Azevedo é oficial do Registro de Imóveis. Foto: Arquivo pessoal
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Ao  findar   a década de 1960, por ser advogado de Múcio de Castro e do  jornal, havia estabelecido   uma rotina  de visitas de fins de tarde  à sua   redação, na sua antiga sede da  Avenida, vizinhando com a nova sede do Banco do Brasil.

Quando ainda não se falava em  happy hour,  naquele horário se revezavam  no gabinete de Múcio de Castro  personagens emblemáticos  da velha guarda passo-fundense, quase todos  já desaparecidos. Eram políticos, jornalistas, intelectuais, empresários, rotarianos, advogados, que se reuniam em torno da figura de  Múcio. As visitas e  as libações não raro  seguiam noite adentro,  uns entrando e outros saindo, para preocupação   das  esposas, que pouco sabiam das  andanças dos maridos   nos  horários  entre o  entardecer e a chegada da noite.    

Sem nunca perder o rumo das conversas, em meio à fumarada dos cigarros e charutos e às rodadas de escoceses de boas marcas, Múcio dominava o ambiente.   Sentado à sua mesa, sem perder o ritmo das conversas, prosseguia imperturbável  em  seu  trabalho, só   às vezes se interrompendo para alguma tirada  ou observação irônica, continuava a   datilografar pausadamente  em sua inseparável   máquina de escrever — se bem recordo era uma Remington —   seus editoriais e noticiários.   

Sempre havia um bom número de frequentadores,   todos  do sexo masculino. Geralmente lá estavam o poderoso  comendador Tadeu Annoni Nedeff, o mais importante empresário da cidade, cordial e tolerante;  o Eleodoro Antunes, da Casa Sonora;  o major Cordeiro, eterno presidente do sindicato dos jornalistas;  Nei Vaz da Silva, comerciante de máquinas agrícolas, espírita   e rotariano, que  chamavam “irmão Nei”, estimado por todos;   Conrado Hexsel, dono da melhor joalheria da cidade;  e o alfaiate  Eblem Kalil, mestre da tesoura, que se tornaria  meu bom amigo e  cliente,  responsável   pela confecção dos mais esmerados trajes que  experimentei.  Às vezes apareciam   Avelino Andreis, da Sulina, o industrial Hélio Bernardon, o advogado Ruy Rache, Celso Fiori, Azir Trucollo, entre outros. Esporadicamente havia visitas de Porto Alegre e de municípios vizinhos ou políticos importantes que vinham a Passo Fundo e nunca  deixavam de visitar o jornal,  como o prefeito Loureiro da Silva, o ministro Tarso Dutra e o deputado Fernando Ferrari, todos recebidos por Múcio com seu jeito  bonachão  e hospitaleiro. 

Em  momentos  críticos, quando havia algo mais grave  a tratar, como aconteceu quando da apreensão do jornal por ordem do major Grey Belles, comandante do 20º  de cavalaria,  se reuniam a portas fechadas   políticos e amigos mais chegados     de Múcio. Eram eles   Daniel Dipp, ex-prefeito e ex-deputado federal; os advogados Augusto Trein, Romeu Martinelli,  o promotor Lauro Guimarães,  os vereadores  Fidêncio Franciosi e Arthur Canfield e o próprio prefeito Menegaz.  Algumas vezes éramos  convocados  o vereador Paulo Pires e eu, como advogado da casa. 

Dos presentes   o  mais jovem   era eu. Algo intimidado, pois aprendi que não se deve interferir nas conversas dos mais velhos,  mais ouvia do que falava.  Apenas observava e escutava o que diziam aqueles senhores circunspectos ou nem tanto  em seus  momentos sérios  ou descontraídos. Claro que de muito me serviram  suas confidências, em todos os sentidos.  Nunca deixei de levar em conta  que o  diabo sabe mais por  velho do que por diabo.  

Pela redação circulavam o Walter Siliprandi e o Nicolau — encarregado dos uísques, do gelo e de algum acepipe providenciado por D. Ada. Nas salas contíguas,  a postos em suas meses,  pois era o horário de maior movimento  da redação, estavam Vieda, João Freitas,  Décio Ilha e Paulo Roberto Pires,  redatores do jornal (o Cafruni já tinha ido para a prefeitura). O Tarso também, quando deixava o Rio de Janeiro para  temporadas em Passo Fundo. Ainda não tínhamos por ali o Mucinho,  muito jovem ainda,  que estudava em Porto Alegre.  Nem o Tasca, o Santarém e o Meneghini,  que mais tarde  viriam  enriquecer  a equipe. Mas lá estavam Gilka e Paulo, auxiliando seu pai na administração do jornal.                 

Aquelas inesquecíveis  tardes do passado foram para mim   como um rito de passagem, que aos poucos  ia me transportando dos sonhos e ilusões  da  juventude para a nua e crua  realidade dos adultos. 

*Por Luiz Juarez Nogueira de Azevedo

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