Um relatório divulgado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), na quarta-feira (24), reforça a importância de melhorar a qualidade das refeições oferecidas nas escolas ao redor do mundo. A publicação Educação e nutrição: aprender a comer bem revela que, embora quase metade das crianças em idade escolar tenha acesso à alimentação dentro das instituições de ensino, ainda há pouca atenção ao valor nutricional das refeições servidas.
De acordo com o documento, refeições equilibradas, feitas com alimentos frescos e acompanhadas de práticas de educação alimentar podem impactar diretamente o aprendizado, a frequência e até o número de matrículas. Estima-se que os programas de alimentação escolar podem aumentar em até 9% as matrículas e em 8% a frequência, além de refletir em melhor desempenho pedagógico.
Ao mesmo tempo, a Unesco alerta para uma relação preocupante: a falta de monitoramento das refeições está ligada ao crescimento da obesidade infantil, que mais do que dobrou desde 1990, enquanto a insegurança alimentar segue em alta. A organização recomenda maior fiscalização sobre o que chega ao prato dos estudantes, a redução de ultraprocessados e a valorização da agricultura familiar e da cultura alimentar local.
Brasil como exemplo
O Brasil foi citado como referência positiva no relatório, sobretudo pelo Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que estabelece restrições aos ultraprocessados e passou a priorizar produtos frescos e de origem local. A legislação brasileira prevê a participação de nutricionistas no planejamento dos cardápios e reserva parte dos recursos para aquisição de alimentos da agricultura familiar. Para a Unesco, o país reúne boas práticas, mas ainda precisa fortalecer a fiscalização e o acompanhamento.
Contexto local
Enquanto a Unesco aponta desafios globais para tornar a alimentação escolar mais saudável e acessível, a rede pública de educação de Passo Fundo apresenta práticas alinhadas às recomendações da organização: incentivo à agricultura familiar, cardápios nutricionalmente planejados e acompanhamento técnico permanente.
Rede estadual
Em Passo Fundo e na região, a 7ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE) é responsável pelas escolas estaduais. A coordenadora, Carine Weber, explica que os cardápios são elaborados considerando as diferentes faixas etárias, sempre observando valores nutricionais adequados. “Temos frutas, verduras, legumes, carnes e cereais que são preparados nas próprias escolas, com acompanhamento técnico em nutrição. O cardápio é padronizado para todas as escolas, mas há adaptações conforme a disponibilidade de insumos. Nas instituições de tempo integral, a diferença está na quantidade de refeições oferecidas ao longo do dia, afirma a coordenadora.
Carine conta que a aquisição dos alimentos é feita diretamente pelas escolas, a partir de dois recursos: o PNAE e o programa estadual Merenda Melhor, que complementa os repasses mensais. Cada escola acessa o cardápio e realiza a compra dos insumos para o período. Por lei, no mínimo 30% da verba deve ser destinada à agricultura familiar — mas, segundo Carine, a média regional ultrapassa 50%. “As nossas escolas, em geral, conseguem adquirir mais da metade dos alimentos diretamente da agricultura familiar, o que garante qualidade e fortalece os produtores locais”, destaca.
A coordenadora frisa que a preparação das refeições também ocorre nas escolas, com a equipe de merendeiras. “O acompanhamento é realizado por técnicas em nutrição lotadas na CRE, que fiscalizam a execução do cardápio, a aquisição dos itens e a prestação de contas. Estamos aguardando a chegada de uma nutricionista para compor a equipe, mas atualmente contamos com técnicas que fazem todo esse acompanhamento”, explica Carine.
Quanto à distribuição, cada escola organiza o horário de acordo com sua rotina. Estudantes dos três turnos — manhã, tarde e noite — recebem a merenda, e nas escolas de tempo integral a alimentação é oferecida mais vezes ao longo do dia.
Rede municipal
Na rede municipal, a lógica segue as diretrizes do PNAE e dialoga com o que defende a Unesco. O secretário de Educação, Adriano Canabarro Teixeira, explica que os cardápios incluem cereais, leguminosas, proteínas, frutas, verduras e laticínios, sempre priorizando alimentos frescos e regionais, adquiridos também por meio da agricultura familiar. “Todos os cardápios são elaborados considerando as etapas de ensino, a idade dos alunos e também os estudantes em tempo integral, garantindo adequação nutricional para a Educação Infantil e o Ensino Fundamental”, detalha Teixeira.
O secretário aponta que os alimentos são adquiridos via licitação e, no caso da agricultura familiar, por chamada pública, com investimento de 100% dos recursos federais nesse segmento. “As refeições são preparadas diretamente nas cozinhas das escolas, com atenção à higiene, segurança alimentar e porções adequadas”, aborda.
Teixeira pondera que o município dispõe da Coordenadoria de Nutrição Escolar, com uma nutricionista responsável técnica e três nutricionistas de quadro, que acompanham todo o processo: do planejamento à capacitação das cozinheiras, passando pela fiscalização da execução e atividades de educação nutricional com os estudantes.
“As refeições são servidas nos intervalos dentro das escolas municipais e em instituições parceiras do programa de tempo integral. Esse acompanhamento técnico garante que os alimentos cheguem de forma segura e que cumpram a função de apoiar a aprendizagem e o desenvolvimento saudável dos alunos”, reforça a nutricionista do município, Gabriela Bortoli.


