Câncer: Cenário de um mal silencioso

Foca no Jornal - Há algum tempo, o câncer ?EUR" um crescimento anormal das células ?EUR" era entendido como doença irreversível e incurável. Apesar de ainda acontecer muitas mortes, um novo cenário está se formando, e o câncer já não assusta tanto

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Por Ângela Prestes, Camila Guedes e Clarissa Battistella

O mal é silencioso. Geralmente sem sintomas, ele aparece devagar. Toma conta. E, quando a pessoa percebe que algo em seu corpo não está funcionando bem, pode ser tarde demais. Todos os anos, 12,7 milhões de pessoas no mundo passam por isso e são diagnosticadas com algum tipo de câncer. E, 7,6 milhões delas morrem. No Brasil, a estimativa do Instituto Nacional do Câncer é de que meio milhão de pessoas seja diagnosticado com a doença até o final de 2012. Os números são tão assustadores que o Ministério da Saúde está tratando a doença como o problema de saúde pública dos mais complexos que o sistema de saúde brasileiro enfrenta. E um detalhe faz toda a diferença: pelo menos um terço dos novos casos de câncer que ocorrem anualmente no mundo poderia ser prevenido.

Antes de qualquer coisa, é preciso conhecer a doença, que não é nova: Estudos comprovam que o câncer já comprometia o homem há mais de três mil anos a.C.. A palavra “câncer” vem do grego karkínos (caranguejo) e foi usada pela primeira vez por Hipócrates, o Pai da Medicina, que viveu entre 460 e 377 a.C. Hoje, mais de 130 doenças provocam o crescimento desordenado de células que tendem a invadir tecidos e órgãos vizinhos.
 É fácil entender: uma célula normal nasce, cresce, multiplica-se e morre de maneira ordenada. Com as células do câncer é diferente. Em vez de morrerem, continuam crescendo de forma incontrolável, formando novas células anormais. Esse crescimento não controlado dá origem às neoplasias, que, na prática, são chamadas de tumores. O oncologista Pedro Braghini, de Passo Fundo, explica que os tumores podem ser benignos ou malignos. O tumor benigno cresce de forma localizada, não invade os tecidos vizinhos, mas pode comprimir os órgãos e tecidos próximos. Já o tumor maligno é capaz de invadir os tecidos vizinhos, o sangue ou os vasos linfáticos, e se espalhar para outros órgãos, dando origem à metástase.  “A célula do tumor benigno é uma célula mais parecida com o tecido normal da pessoa, e no tumor maligno a célula é diferente, tem características, no exame microscópico, que permitem ao patologista dizer que aquele tumor é maligno”, comenta. O mais importante é entender que “câncer é igual a tumor maligno. Não existe câncer benigno”, explica o médico.

Segundo o Ministério da Saúde, o câncer está entre as doenças não transmissíveis responsáveis pela mudança no perfil do adoecimento da população brasileira, e vários fatores explicam isso: a maior exposição a agentes cancerígenos, em função dos atuais padrões de vida adotados em relação ao trabalho, alimentação e ao consumo, de modo geral; o prolongamento da expectativa de vida e o envelhecimento populacional; o aprimoramento dos métodos para se diagnosticar o câncer; o aumento do número de óbitos pela doença; e a melhoria da qualidade do registro da informação. Registros, aliás, que são fundamentais para a compreensão da doença e seus determinantes.

Os tratamentos evoluíram muito, mas infelizmente é algo muito difícil de prever, por enquanto… O oncologista garante que em alguns anos poderemos fazer um mapa genético do corpo e saber, ainda pequenos, se temos ou não predisposição para desenvolver a doença e, dessa forma, tomar medidas de prevenção mais eficazes e inteligentes. Cabe pesar se queremos ou não crescer com essa preocupação na cabeça. Afinal, para muitos, o diagnóstico é como o início do fim. Para outros, é o início de uma etapa de lutas, de redescoberta de que cada dia é importante e do desejo de viver intensamente todos eles.

Algumas respostas

É normal surgiram muitas dúvidas quando o assunto é câncer. Há cura? Existe prevenção? A tecnologia, que cada vez contribui mais com a ciência, pode ajudar nessa luta tão difícil? Conversamos com o Doutor Pedro Braghini, que é oncologista há 22 anos. Confira a entrevista abaixo, onde ele explica mais sobre a doença.

Nexjor – O senhor trabalha como oncologista há 22 anos. Durante todo esse tempo, o que o senhor observa na evolução do tratamento? Há grandes mudanças?

Dr. Pedro Braghini - Houve importantíssimas mudanças. Quinze, vinte anos atrás nós tínhamos, praticamente, para câncer avançado só a quimioterapia convencional. Hoje, nós temos drogas chamadas drogas-alvo, drogas biológicas, que atuam em determinadas características em diferentes tipos de tumor. São medicações mais específicas, que não afetam tanto o organismo de um modo geral e mais o tumor de modo específico. Esse é o maior avanço. Além disso, ocorreram avanços na radioterapia. Hoje é uma radioterapia de melhor qualidade do que era há 20 anos. Usam-se técnicas, por exemplo, a INRT, que é uma modalidade de radioterapia mais sofisticada, que protege mais os tecidos sãos e se direciona mais ao tumor. Drogas para inibir os efeitos colaterais da quimioterapia, por exemplo, o enjoo, estão bem mais potentes, mais específicas. Então, os pacientes não vomitam mais tanto, passam melhor com o tratamento. São avanços muito importantes. Quanto ao diagnóstico, hoje, nós temos ressonância nuclear magnética de melhor qualidade, tem o PET-CT, um outro tipo de exame para diagnóstico também, que usa o contraste vivo; um contraste de glicose mais específico para as células do tumor, permite avaliar bem melhor a extensão do câncer, se ele já se espalhou para outros órgãos, onde ele está, se é passível de fazer cirurgia ou não. São avanços em várias áreas dentro da oncologia.

Nexjor – As chances, hoje, de uma pessoa que é diagnosticada com câncer de ter uma vida mais longa, talvez sobreviver, é maior?

Dr. Pedro Braghini - Bem maior. Hoje, se curam em média de 50 a 60% dos pacientes que têm câncer. E, mesmo naqueles que não são passíveis de cura, a sobrevida na maioria dos tumores aumentou. Sobretudo o câncer de mama, para o qual surgiram diversas drogas novas; o câncer de intestino também melhorou muito. Só para dar um exemplo, o câncer de intestino, 14 anos atrás, quando ele era espalhado, metastático ou enraizado, como o leigo diz, os pacientes sobreviviam de 6 meses a um ano. Hoje, eles sobrevivem de 2 a 2 anos e meio. Isso, para oncologia é um aumento muito grande da sobrevida. Alguns pacientes com câncer de mama podem viver quatro, cinco, seis anos com doença metastática. Eram doenças muito agressivas, antes morriam em um ano, um ano e meio. Não são todos os tipos de câncer que tiveram um avanço tão grande, mas nos tumores mais comuns quase todos avançaram. O próprio câncer de pulmão, por exemplo, que é muito agressivo, quando ele está metastático, os pacientes viviam de seis a nove meses. Hoje, eles vivem um ano e meio, às vezes um pouco mais. Isso com a incorporação dessas outras drogas que ajudam a quimioterapia convencional. Uma vez nós tínhamos só a quimioterapia; agora nós temos a quimioterapia mais as drogas biológicas que, dependendo do tipo de câncer, é uma medicação diferente, mas todas têm em comum essa característica de atuar numa característica da célula daquele tumor específico. É mais dirigida.

Nexjor – Há diferenças grandes no tratamento aqui no Brasil e em outros países?

Dr. Pedro Braghini - Em termos de disponibilidade de medicações, temos quase tudo que há no exterior. O problema é o acesso. Essas drogas novas são muito caras, se comparadas com a quimioterapia convencional e, no Brasil, ainda não existe uma normatização em termos de pagamento dessas drogas. Isso está gerando uma avalanche de ações judiciais, porque os pacientes se obrigam a entrar na justiça para conseguir o acesso aos remédios. Esse é um problema. Drogas que estão disponíveis há anos no exterior, aqui, a gente tem que entrar na justiça para conseguir. Devagarzinho isso está mudando. Logo vai entrar uma droga nova para câncer de mama. Essa é uma preocupação grande da oncologia, porque os remédios são pesquisados com vistas a esse caminho. São drogas inteligentes. Descobriu-se qual é a cascata de movimento para a célula se multiplicar, porque o câncer é uma célula que se multiplica de maneira autônoma; ela não tem o freio do crescimento, não morre mais, vai sempre se multiplicar. Conseguiu-se descobrir quais são as vias que fazem a célula se multiplicar, e as drogas servem para bloquear esses caminhos. Mas o câncer não depende só de um caminho, são quatro ou cinco vias de transmissão do sinal para o crescimento de novas células. Então, os pesquisadores bloqueiam uma via, mas o câncer vai por outro caminho.

Qual é o futuro da oncologia? É que futuramente a gente vá tomar um coquetel, como o da AIDS. A pessoa vai tomar 4 ou 5 remédios que vão bloquear essas vias e, talvez, ela nem tome mais quimioterapia. A quimioterapia tende a ser um tratamento cada vez menos usado. Certamente, ela vai ser usada por muitos anos, ela não é um tratamento inteligente, porque ela afeta as células do câncer, mas afeta também todo o organismo. O futuro da oncologia é a biologia molecular, e a prevenção também vai caminhar para esse lado. A pessoa vai fazer um mapa genético e vai poder ver onde há risco de desenvolver o câncer e poder tomar medidas de prevenção mais eficazes e inteligentes. Tanto o tratamento como a prevenção caminham para o lado biológico, que está muito avançado. É uma área bem desafiadora, não se imaginava que íamos ter tanto conhecimento. Para se ter uma ideia, em relação ao câncer de pulmão, por exemplo, 5% dos pacientes com câncer de pulmão, no Brasil, têm uma alteração em um determinado gene e, se usa remédios específicos para essa alteração, se eles tomarem o remédio, mesmo com a doença metastática, eles vão viver em torno de 38 meses. Quando eles eram tratados só com quimioterapia viviam 9 meses. Nós estamos falando de 30 meses de aumento de sobrevida tomando um comprimido por dia. O problema é o custo e o acesso. Esse vai ser o desafio de toda a sociedade. São Paulo já conseguiu um avanço, pois conseguiram negociar os remédios que devem ser incluídos e pagos pelo estado. Assim, os pacientes têm acesso direto, não precisam entrar na justiça para conseguir. Isso vai acabar acontecendo no Brasil inteiro. Você não pode negar um tratamento que dá meses e meses de sobrevida e de qualidade de vida para os pacientes. Se o governo não dá, você tem que obrigá-lo a dar.

Nexjor – Afinal, tem como prevenir o câncer ou não?

Dr. Pedro Braghini - Alguns tipos. Nós temos que entender que o câncer é mais de 130 doenças. Então, para umas há formas de prevenção, para outras não. Para os mais comuns tem. Por exemplo, para o câncer de mama é a mamografia, o ultrassom da mama, a partir dos 40 anos. O câncer do colo do útero tem o exame Papanicolau, que é o exame de prevenção, feito a partir dos 20, 21 anos, quando a mulher começa a sua vida sexual. Para o câncer de intestino, também existem exames que podem ser feitos, entre eles o mais conhecido e eficaz é a colonoscopia, que deve ser feita tanto no homem como na mulher a partir dos 50 anos, dependendo do resultado, se repete a cada 5 a 10 anos ou até mais frenquentemente, se tiver pólipos. Para o câncer de pulmão, que é um câncer muito comum, tem certa controvérsia, mas, se o paciente é de risco, fumou por mais de 20 anos e está entre 55 e 76 anos existe a possibilidade de fazer uma tomografia de alta resolução, que pode detectar nódulos pequenos no pulmão. O objetivo da prevenção sempre é pegar o câncer o menor possível, no começo. Para o câncer de próstata tem o toque retal, a partir dos 50 anos. Esses são os principais. O câncer de pele, você teria que fazer uma visita anual ao dermatologista. O mais importante é quando o paciente tem uma queixa, por exemplo, um sangramento, um nódulo, uma tosse persistente, uma falta de ar, uma dor, que ele vê que não melhora, tem que procurar um médico e fazer exames. Porque nós temos que entender que a maioria dos sintomas são comuns ao câncer e a outras doenças. A tosse, por exemplo, pode ser uma bronquite, tuberculose, pneumonia ou pode ser um câncer. Tem que investigar, porque pode ter alguma coisa a mais.
E, claro, a melhor atitude para prevenir o câncer é não fumar ou parar de fumar. De longe é o que a gente poderia fazer de melhor. O cigarro está envolvido no câncer de pulmão em torno de 85%, mas ele causa vários outros tipos de câncer: boca, laringe, faringe, esôfago, pâncreas.

Nexjor – Alguns tipos de câncer se desenvolvem em razão de alguns hábitos e outros aparecem naturalmente…

Dr. Pedro Braghini - Sim. Por exemplo, o álcool e o tabaco estão envolvidos diretamente. São atitudes que a gente pode mudar. O que a gente pode fazer além disso: exercício para se proteger de alguns tipos de câncer, como próstata, mama, intestino. Fazer exercício pelo menos três vezes por semana, por trinta minutos é uma forma de prevenir. Cuidar com a dieta. Diminuir o consumo de carne vermelha e de gordura. São atitudes de estilo de vida que ajudam, além de fazer os exames. Mas, se eu fosse escolher uma coisa para fazer para prevenir é não fumar ou parar de fumar. Quem para de fumar, vai diminuindo o risco de câncer ao longo do tempo. Em torno de 14, 15 anos, a pessoas vai ter um risco parecido com o de quem nunca fumou, mas vai ter benefícios para a saúde muito mais precoces, tais como diminuir o risco de infarto, de derrame, de bronquite, enfisema. Sempre vale a pena parar de fumar.

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