Voluntários por vocação

Passo Fundo reúne centenas de pessoas que trabalham pelo próximo sem ganhar um real. Esta é uma maneira de fazer um mundo melhor

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Para ser voluntário não é preciso ser graduado, ter especializações ou outras formações, basta ter o sentimento de compaixão. Enxergar o ser humano de igual para igual ainda não é para qualquer um. Ser voluntário exige dedicação, sensibilidade e compromisso. O resultado deste trabalho não será em forma de salário no final do mês. A recompensa de se doar para o próximo é algo que as pessoas buscam todos os dias e não há preço que pague: felicidade.  Em Passo Fundo existe a Associação de Voluntários Cidadãos Entusiasmados (Avoce) que atua para despertar o voluntariado na sociedade civil e inserir os interessados em instituições que necessitem deste serviço.

A Avoce foi criada há quase quatro anos com o intuito de organizar e agrupar os voluntários que atuavam de forma independente no município. Conforme a integrante da associação, Sueli Gehlen Frosi, a Avoce é composta por cidadãos da sociedade civil que ajuda o próximo voluntariamente. “O voluntário não vai exercer o papel e o trabalho do Estado. Ele vai intervir nas políticas públicas colaborando com um conhecimento precioso: o da vida. O voluntário traz e ajuda na elaboração e na execução das políticas”, explicou Sueli.

Um dos grandes desafios é a resistência que os órgãos públicos têm de aceitar o serviço voluntário. “Eles têm a sensação que os voluntários vão atrapalhar ou tomar o lugar dos funcionários. Na verdade, o voluntário oferece seu trabalho para enriquecer o trabalho do funcionário público. Ele vem intervir com seu brilho e conhecimento humano”, disse a integrante da Avoce.

Para ser um voluntário é preciso ter sentimento de compaixão, sensibilidade de ver o outro como igual, compromisso e pensar com o coração. “A humanidade cresce quando vê o outro como igual. As pessoas que prestam o serviço voluntário são mais felizes. Ser voluntário torna a vida mais interessante. O voluntariado proporciona uma satisfação que não é alcançada no trabalho profissional”, afirmou Sueli.

Uma das ações realizadas pela Avoce, em parceria com a Promotoria e Juizado da Infância e da Juventude, Imed, Upf, Escola de Pais do Brasil, Case e outras entidades, foi a capacitação para voluntários interessados em trabalhar como orientadores sociais para acompanhar jovens em conflito com a lei no cumprimento da medida socioeducativa da Liberdade Assistida Comunitária. “No primeiro dia foram mais de 400 pessoas interessadas. No final, restaram apenas 60 pessoas preparadas e interessadas”, relembrou a integrante da Avoce.

Avoce

A associação cadastra os interessados em dedicar algumas horas da sua semana para o serviço voluntário e direciona para as áreas de interesse. Informações pelo telefone (54) 3313-1694.

 “Temos um potencial maior do que pensamos. No voluntariado estamos exercendo a compaixão”

Sueli Gehlen Frosi é integrante da Avoce e presta serviço voluntário em entidades como a Escola de Pais do Brasil, Academia Passo-Fundense de Letras, no Grupo Integrado de Estratégias de Prevenção ao Uso de Drogas (Giep) e Associação Comunitária contra o uso do Álcool na infância e adolescência (Acom).

Mãe de cinco filhos, o interesse de Sueli pelo serviço voluntário surgiu há cerca de 30 anos na área de educação através da Escola de Pais do Brasil. “Percebemos que existia alguma coisa a ser feita. Havia lacunas na escola e sentimos necessidade de contribuir de alguma forma. Eu e meu marido estudamos muito e viajamos para nos preparar para sermos mediadores de discussões com os pais a respeito do papel da família. Cheguei até cursar a Faculdade de Filosofia”, revelou Sueli.

Conforme a voluntária, não há um trabalho por parte do Estado voltado para as famílias. “É difícil educar os filhos e muitos desistem e terceirizam essa função para a escola. Isso acaba sobrecarregando os professores”, salientou a voluntária.

“O trabalho voluntário foi um remédio para minha depressão”

Iraci Rita Marcon Vicentini, de 60 anos, é ministra da Eucaristia, distribui boletins da Paróquia na comunidade, arrecada o dízimo, cuida da neta, do afilhado, do marido, do cachorro, do papagaio, da tartaruga, é revendedora da Avon e ainda encontra tempo para fazer um trabalho voluntário. Há oito anos, Iraci atua como voluntária da Cáritas Diocesa na Paróquia Santo Antônio, no bairro Petrópolis. Todas as segundas-feiras à tarde ela recebe roupas e alimentos da comunidade para serem doados às pessoas que não têm condições financeiras. Atualmente, ela é a coordenadora dos trabalhos da Cáritas no bairro.

Há 10 anos, a dona-de-casa passou por uma série de problemas de saúde na família e tempos mais tarde foi diagnosticada com depressão. A dica do médico foi para que ela ocupasse o tempo o máximo possível. Iraci realizou dezenas de cursos de artesanato. Aprendeu fazer fuxico, bordado, tricô, pintura em tecido, em vidro, entre outros. Como ela conhecia o trabalho voluntário de algumas senhoras que atuavam na Paróquia resolveu se oferecer para ajudar. “Pedi pra ajudar, pra fazer qualquer coisa, nem que fosse servir cafezinho. Nesta vida nunca podemos dizer que não sabemos fazer nada. Comecei ajudando e hoje trabalho sozinha nesta missão como coordenadora. O serviço de voluntária foi um remédio para a minha depressão”, relatou Iraci.

Todo mês são distribuídas cerca de 50 sacolas de roupas e alimentos para as mulheres cadastradas na Paróquia e que moram nos bairros da Petrópolis, Entre Rios, Sétimo Céu, Jardim do Sol, Santa Rita, Umbu e Azambuja. Durante o ano, estas mulheres fazem cursos de artesanatos.

A voluntária se sente realizada com o trabalho, mesmo sem ganhar um real. “Ver o sorriso das pessoas não tem preço. Melhor que receber é dar um presente. Lá a gente conversa, dá risada e a tarde passa que a gente nem vê”, declarou Iraci.

Atualmente, há bastante dificuldade para conseguir voluntários para ajudar neste trabalho. “Convido as mulheres, mas de graça ninguém quer. Fazer um trabalho voluntário é uma lição de vida. Você aprende muito com as pessoas”, disse a voluntaria. 

“Já visitei e orei por 30.681 pacientes internados nos hospitais de Passo Fundo”

O radialista e ministro da Paróquia Nossa Senhora da Conceição, Gilson Paz, de 82 anos, tenta levar ao próximo justamente um pouco de paz para os cerca de cem pacientes que visita todos os dias nos hospitais existentes no município. Cada paciente visitado é listado no caderninho do ministro. No jaleco branco que o acompanha, além do nome, há uma frase: Jesus te ama.  Este trabalho voluntário iniciou há seis anos. “Sou muito católico, rezo o terço na rádio Planalto há 16 anos e procuro levar a paz para estes doentes”, disse Paz.

Em 1937, aos sete anos, Paz era uma das poucas crianças diagnosticadas com paralisia infantil. Durante um ano e meio, uma das pernas permaneceu engessada. O tratamento foi realizado em São Paulo. A mãe dele fez uma promessa para Nossa Senhora de Guadalupe e depois de oito meses ele estava curado. A lembrança deste fato foi um dos fatores que levou o ministro da Paróquia a rezar e visitar os pacientes nos hospitais.

Mais de 95 mil pessoas estão na corrente de orações de Paz. “Visito pacientes que estão na emergência, na recuperação, na CTI, nos postos. O mais difícil é visitar a pediatria e o setor de hemodiálise. Faço uma breve oração e peço que eles acreditem na fé. A fé cura. Se você não tiver fé, não vai a lugar algum”, declarou Paz.

“O que me faz feliz é o sorriso das crianças quando elas estão curadas e vão para casa”

A presidente do Centro Assistencial à Criança com Câncer (CACC), Clair Medeiros Müller, de 70 anos, é voluntária na casa há aproximadamente cinco anos. Quando se aposentou da profissão de professora começou a fazer cursos, ginástica e outras tarefas, mas, as atividades não preenchiam todo o tempo disponível. Foi quando ela foi convidada para conhecer o CACC. “Ajudo na cozinha, no administrativo, a cuidar das crianças, sou pau para toda obra”, disse a voluntária.

O CACC atende 63 crianças e 33 adultos através da Liga Feminina de Combate ao Câncer. Clair salientou que a maioria das pessoas que trabalham no local são voluntários e estão sempre prontos para ajudar. A recompensa para ela está na recuperação dos pacientes. “A maior recompensa é quando as crianças estão bem e dão alta”, declarou Clair.

 

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