Bondade semeada

Por meio de um grupo de voluntários, a costureira Araci Ricci, responsável por confeccionar gratuitamente o vestido de seis debutantes em tratamento oncológico, teve seu espaço de trabalho completamente reformado

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A sala foi toda reformada com auxílio de voluntáriasA sala foi toda reformada com auxílio de voluntárias
A sala foi toda reformada com auxílio de voluntárias
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Em meio às linhas, os tecidos e as agulhas, mais do que simples peças de roupas são costuradas no ateliê de Araci Ricci. Assim como está escrito em um dos quadros que, recentemente, foram pendurados pelas paredes do lugar, ali se costura amor. Foi com este amor e dedicação de quem costura há mais de 40 anos que Dona Araci comoveu um grupo de voluntários, responsáveis por reformar toda sua sala de costura, na última semana.

 

A história de Araci ficou conhecida entre os voluntários por um ato em particular: foi ela quem costurou seis vestidos, gratuitamente, para uma festa de debutante de jovens em tratamento contra o câncer no Hospital São Vicente de Paulo (HSVP), em outubro de 2016. Na época, o espaço de trabalho da Dona Araci não passava de uma sala pequena, abarrotada de objetos, onde a iluminação era tão fraca que a costureira precisava utilizar uma segunda lâmpada na mesa de costura para que pudesse enxergar o próprio trabalho apropriadamente.

 

“Eu sempre gostei de ajudar, mas nunca tinha feito algo desse tipo, até porque eu não sei lidar muito bem com doença. Foi muito difícil para mim ir tantas vezes ao hospital, eu voltava para casa chorando”, Araci relata, com os olhos marejados. “Uma das meninas, a Ari, é cega e cadeirante. Então havia toda essa dificuldade. Ela pegava e sentia o vestido, descobria tudo pelo toque. Foi uma emoção ver ela provar o vestido e se achar linda sem se enxergar”.


Fernanda Marini, publicitária e funcionária do HSVP, também conheceu a história e o local de trabalho de Araci depois do gesto de bondade da costureira. “Eu já conhecia a Sílvia, filha da Dona Araci, por trabalhar com ela no hospital. Quando começou a organização do Projeto Cinderela, que deu a festa de debutante àquelas meninas, eu era uma das voluntárias e, por isso, eu e a dona Araci nos cruzávamos muito quando ela ia até o hospital para fazer a prova das roupas com as meninas, porque a maioria delas estava debilitada demais para vir até a casa da Dona Araci. Aí, em um dia, eu estava conversando com a Silvia e ela me contou a história da mãe dela.

 

Quando eu vim na casa da Dona Araci pela primeira vez, logo notei o quanto o lugar não favorecia a beleza do trabalho dela”, Fernanda conta. Depois deste contato, durante meses, Fernanda não conseguiu deixar de pensar na história de Araci e no quanto gostaria de ajudá-la.


Engajada com ações voluntárias há anos, a publicitária sabia que poderia fazer algo pela costureira, algo que mudaria a sua qualidade de vida: estava disposta a reformar a sua sala de costura. Em meados de março, ela publicou pela rede social Facebook um pedido de ajuda voluntária, dizendo que precisava de arquitetos, mas sem especificar o motivo. A partir daí, a ideia saiu da cabeça de Fernanda e começou a ganhar forma. “Quase 20 pessoas se interessaram em ajudar, mesmo que praticamente nenhum deles me conhecesse. A maioria era gente jovem, que nunca havia participado de nenhum voluntariado antes, mas que queria muito ajudar. Fizemos algumas reuniões e, por fim, acabaram ficando seis arquitetos para ajudar na reforma”.


O processo todo, entre a elaboração do projeto e a etapa em que todos colocaram a mão na massa, levou cerca de cinco meses. Todo o material arrecadado para a reforma foi recebido por meio de cerca de 40 doadores, entre pessoas físicas e empresas. Como a ideia era fazer uma surpresa para Dona Araci, os arquitetos precisavam fazer as medições do local enquanto ela ia à missa.

 

“A filha e a nora dela abriam a porta para a gente e íamos embora antes de a Dona Araci voltar. Elas foram nossas cúmplices”, Fernanda comenta. Quando todos os materiais haviam sido arrecadados, restava somente achar um jeito de tirar a Dona Araci da casa, para que a reforma pudesse começar a ser feita. Para isso, o grupo conseguiu reserva de três dias em um hotel, onde a costureira e o marido, Luiz, se hospedaram – nos dias fora de casa, o casal também pôde ir a diferentes restaurantes e fizeram um ensaio fotográfico, tudo de graça.


Além de Fernanda e dos seis arquitetos, quatro pedreiros também se voluntariaram para ajudar na reforma. O local foi todo modificado: desde o piso, até o teto. “Trocamos o forro, fechamos uma área, mudamos a porta, fizemos uma antessala, reformamos a parte de fora, pintamos as paredes, decoramos o interior”, descreve a publicitária. Entre toda a decoração, um cantinho de muito significado chama a atenção: uma caixinha na parede, com a assinatura de todos os voluntários, fica bem ao lado do quadro com as seis debutantes que receberam os vestidos de Dona Araci.

 

“Foi sem um minuto de sossego. Enquanto uns descansavam, o restante almoçava. Isso que é o bacana. Move as pessoas, faz elas saírem da zona de conforto e se comprometerem a mudar a vida de alguém”.

 


Uma semente que se espalha


A ação do grupo, muito mais do que agradar à costureira, plantou a semente do voluntariado no coração de diversas pessoas que tiveram contato com o ato. A arquiteta Samara Dal’ Alba, que ajudou na reforma, conta que sempre teve interesse em participar de projetos voluntários, mas isto não havia se concretizado, até então. “A sensação em ter participado é muito gratificante. Saber da história de vida da Dona Araci e ver o sorriso misturado com emoção, dela e da família dela, foi inexplicável. O final de semana de muito trabalho e mão na massa encerrou com muita gratidão e carinho pelas pessoas que contribuíram para realizar este sonho. Nossa maior recompensa foi ver a alegria no olhar deles, pois não transformamos apenas o espaço, nós transformamos vidas”.

 


Fernanda, a mais experiente do grupo quando se trata de voluntariado, também se emociona ao falar sobre a ação concretizada no ateliê de Dona Araci. “Eu fico muito feliz. A gente não tira nada daqui, fica tudo para eles, mas o que ficou para mim e para a gurizada, não tem preço. Muita gente tem me procurado falando que quer participar quando tiver outra ação, e me emociona toda essa resposta positiva. Tudo foi feito com muito carinho, cada detalhe é feito sem pretensão, mirando somente fazer aquilo que é possível. Quando você se junta com várias pessoas que enxergam da mesma maneira, fica mais fácil”.

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