Marina de Campos
É manhã de 3 de setembro de 1939 e milhares de cidadãos britânicos se encolhem próximos aos seus aparelhos de rádio para escutar atentamente o discurso do rei. As palavras que ouvirão, ao contrário do teor de sua mensagem, devem soar firmes e tranquilizadoras: a partir daquele momento, a Inglaterra declara guerra à Alemanha nazista e dá seu primeiro passo em direção à Segunda Guerra Mundial. George VI, o homem que carrega esta missão, possui na voz o maior de seus pesadelos, a manifestação concreta de suas vacilações nas palavras que insistem em não sair como deveriam. Faltam poucos minutos e ele teme que não seja capaz.
Mas como um verdadeiro rei, vai chegar junto ao microfone e superar as próprias limitações fazendo o discurso mais importante de sua vida com firmeza e maestria invejáveis a qualquer um de seus súditos. Tanto a nobreza quanto o proletariado respiram aliviados, sentindo na falta de hesitações a confiança necessária para acreditar. “Se todos nós continuarmos fiéis e prontos para qualquer serviço ou sacrifício, com a ajuda de Deus, deveremos prevalecer.” Sua fala, de repente tão convicta, não está equivocada. A história vai comprovar essas palavras e imortalizar sua façanha, transformando-o no anti-herói que tinha a própria voz como único inimigo – e de quem venceu, corajosamente.
Estreia premiada (e demorada)
Meio ano após o lançamento mundial e mais de um mês depois de sua consagração no Oscar 2011, O Discurso do Rei estreia em Passo Fundo ainda com certo impacto justamente devido à repercussão da vitória na premiação mais importante da indústria hollywoodiana. Apesar de estarmos em uma era dominada por vazamentos de discos e downloads de filmes pela internet, o longa deve ser recebido com curiosidade pelos passo-fundenses que esperam ansiosamente a oportunidade de assistir ao melhor filme do ano na opinião da Academia nas dimensões de uma tela de cinema.
Apesar da demora, a estreia eleva a qualidade da programação local das últimas semanas trazendo um filme que, se não é de todo bom, tem seu mérito na elegância técnica e nas sequências de pura inspiração. Além de arrematar os troféus mais importantes da noite conquistando o Oscar nas categorias de melhor filme, roteiro original, direção para Tom Hooper e ator para o protagonista Colin Firth, o filme foi imensamente elogiado pelo primeiro-ministro britânico David Cameron. “O tremendo sucesso nos Globos de Ouro, nos Baftas e agora no Oscar é um reconhecimento ao talento e à criatividade que fazem com que a indústria do cinema britânico seja de primeira classe. O Discurso do Rei fez com que o Reino Unido se sentisse orgulhoso”, declarou Cameron.
Mesmo que alguns critiquem o rigor tradicional da produção, afirmando que sem muita ousadia o filme tenha poucas chances de entrar para a lista dos memoráveis, para os menos exigentes O Discurso do Rei é facilmente um dos bons filmes da atualidade, completo e competente no objetivo de apresentar um drama de superação inusitado em sua origem, mas semelhante a grandes clássicos em sua sequência final.
Inspirador, e basta
A verdade é que pouco importa o que a crítica disse ou deixou de dizer quando um filme tem pelo menos um momento inspirador. Não que seja a função do cinema, mas é certamente uma de suas maiores qualidades. O Discurso do Rei tem vários desses momentos, e apenas por isso já validaria a sua tão comentada vitória no Oscar, mas além disso tem qualidades fortes que reunidas fazem do longa um exemplo de bom cinema contemporâneo. Além da direção despretensiosa de Tom Hooper e a direção de arte aliada à fotografia, ambas respeitando a época e o ambiente em seus tons comedidos, o elenco do filme é um dos trunfos na hora de tornar verossímil o inusitado drama de George V. Gago desde criança, ele se vê refém da fala quando é obrigado a assumir o trono no lugar de seu irmão e passar a ser “a voz” da nação. Após desperadas tentativas com toda sorte de doutores, fonoaudiólogos e especialistas, sua mulher o leva a Lionel Logue, um homem dedicado à problemas de dicção com métodos pouco ortodoxos. É na relação dos dois que surge o verdadeiro tema do filme: exigindo igualdade ao rei, Logue o desafia de todas as formas e acaba se aproximando de George como nunca ninguém havia feito. A complexa amizade dá espaço para que os dois atores - Colin Firth e Geoffrey Rush - executem sequências memoráveis, tanto cômicas quanto emocionantes. O protagonista, é preciso citar, realiza tão bem a difícil missão de gaguejar o filme inteiro que provoca a angústia real de quem vive o problema.
No que diz respeito à trama, torna-se interessante a ausência de heróis e vilões, já que George jamais deixa de lado suas fraquezas, Logue mostra-se mais humano e passível de fracassos do que gostaria, e a Elizabeth vivida por Helena Bonham Carter acaba por representar toda a angústia, vergonha e, principalmente, esperança que permeia todos os personagens.

