De Passo Fundo a Porto Alegre pode ser um passeio. Para Eliéser Lemes a viagem foi musical, virando a partitura local para uma página internacional. O menino, que entrou no palco da vida pelo Hospital São Vicente, deu os primeiros passos na Vera Cruz com a vibe musical da família. “O pai (Luiz Lemes) arranhava um violão e a mãe (Adriana Meira Lemes) sempre gostou de cantar. Quando eu era piá, tinha uma guitarra”. Enquanto seu Luiz escutava Elton John, o ouvido do menino abriu caminho para o rock entrar e nunca mais sair dali. Um rock cada dia mais refinado, com graduação superior, estrada e, agora, aos 32 anos, como baterista da banda Pata de Elefante.
Escolas e Los Marias
“Depois da Creche da Sami, fui para a Escola Senador Pasqualini, no Bairro Leão XIII, e após para o Fagundão, onde tinha o Festival de Artes. Gilmar na guitarra e eu na batera”. Mas a primeira banda foi The Peppers: “meu tio Jonatas (seu primeiro incentivador) na guitarra, Vini nos teclados e Gilmar no baixo. O Xico Almeida da Etc eTal Bottons me apresentou para o Serginho, levou um ano e me chamou. O Chico Fran da General Bonimores saiu e assumi a bateria”. Sim, Eliéser era um de Los Marias. “Abrimos o show do Frejat na Gran Palazzo, Milton Roque, Sérgio Júnior, Ihago e eu na bateria, além do tecladista Vinícius. A gente gravou no Studio VIP, do Dudu Borges, em São Paulo”.
No Menor Palco do Mundo©
Jeito tímido e talento nas baquetas, o menino Eliéser já era profissional. “Cursei seis semestres de Administração na UPF. Mas os três (Los Marias) estudavam Música. Então troquei a Administração pela graduação em Música. Em 2021 sai bacharel em Percussão”, conta com um largo sorriso. “Tocamos em Chapecó, Joaçaba, São Miguel do Oeste... Acampamos num sítio em Perequê e tocávamos na rua em Meia Praia.” Mas, com certeza, a grande vitrine de Los Marias é o Batatas. Quantas vezes subiu ao Menor Palco do Mundo©? “Mais de um milhão de shows... (gargalhadas). Até na pandemia a gente fazia lives. É uma vitrine e uma escola. Só a prática faz evoluir. Bater ali, é o que te deixa forte”. Além disso, Los Marias tocaram no Porão, Maktub, Siri Cascudo, King Size, Interação UPF, praças e Rio Grande do Sul afora.
Nem sonhava
Convidado pela banda argentina Star Beatles, Lelê, como é conhecido pelos amigos, integrou um grande circuito. “Assunção, Mato Grosso, São Paulo, Curitiba, Costão do Santinho em Floripa... Maurício Chaise entrou no Star e disse para eu ir para Porto. O Pedro Petracco também. Eu estava lá, meio triste, deslocado e, do nada, em 1º de abril de 2023, o Gabriel Guedes perguntou se eu poderia fazer um show com a Pata. Cara, fiquei bobo quando ele disse quanto pagavam. Fomos para um festival, em Belém do Pará. Três ensaios e tudo bem. Eu tinha os discos deles e conhecia bem, pois era fã do baterista anterior (Gustavo Telles). Depois, sentei com o Dani Mossmann e o Gabriel Guedes. Era só para um show, mas perguntaram se eu não queria entrar na banda. Eu nem sonhava com isso.” Enfim, o fã agora era um dos seus ídolos.
Pata de Elefante
Literalmente, a Pata é grande. “Turnê com Wander Wildner, Floripa, Blumenau, Novo Hamburgo e estamos com agenda completa até outubro”. Pata de Elefante é uma banda de rock instrumental. Ano passado, no Goethe-Institut em Porto Alegre, fez sessões musicadas do clássico ‘O Gabinete do Dr. Caligari’, de 1920. “São só três instrumentos. Bateria não é apenas acompanhar, é bem costurado porque todos os instrumentos são vozes”. Enquanto a Pata segue com agenda nacional e internacional, Eliéser está ligado no Passinho. Começou arranhando guitarra numa igreja de Passo Fundo. A veia afro materna deu marcação: “minha bisa era Mãe de Santo”. E as origens são fortes. “Tenho muita vontade de tocar com a Pata em Passo Fundo.”
Na condução de Eliéser

Bateria
“A bateria pra mim é mais do que velocidade. É muita técnica, muita dança, muita musicalidade. O bumbo faz pum, a caixa faz pá. Mas não é só isso, você tem que estar casado com o baixo. Às vezes, tocar menos é mais. Geralmente, na música pop tocar menos é mais”.
Shows
“É uma honra tocar num show, ver as pessoas dançando. É você quem está mandando energia em forma de ritmo para elas”.
Pata de Elefante
“É o sonho que eu nem sonhava. Às vezes me cai a ficha, gente. Bah, cara, eu sou da Pata de Elefante, como assim? Os caras são ídolos pra mim. O Gabriel é o melhor guitarrista do Brasil disparado. O Dani também tem uma bagagem gigantesca de referência. Cada um tem sua linguagem instrumental”.
Inspirações
“Ah, o Ringo Starr, pra mim, sempre foi uma coisa absurda, porque eu acho a simplicidade que ele toca muito sensacional. Os Rolling Stones também, o Charlie Watts foi muita referência. Aqui em Passo Fundo tem o Zito. Vi o cara tocando no Batatas, no palco minúsculo, com uma caixa e um bumbo. Carlos Bolacha, os irmãos Chaise e Gustavo Telles que era da Pata”.
Originalidade
“O futuro é buscar a originalidade, porque tá muito fácil hoje em dia com a inteligência artificial fazer coisas iguais. Às vezes o erro ali, que nem é erro, né, é o que dá o charme no negócio todo. Tem que botar a tua personalidade, o que tu gostas e teu coração é importantíssimo”.



