Medo, ansiedade, culpa, insegurança, perda da autoestima e dificuldade para reconstruir vínculos são marcas que permanecem mesmo depois que a vítima consegue se afastar do agressor. Em muitos casos, os impactos psicológicos começam antes mesmo de uma agressão física, por meio de comportamentos como controle, isolamento e desvalorização.
É nesse contexto que o Agosto Lilás reforça a importância da prevenção e do enfrentamento à violência doméstica e familiar contra a mulher. Em 2026, a campanha também ganha destaque pela marca de 20 anos da Lei Maria da Penha, considerada um dos principais instrumentos de proteção às mulheres no país.
Dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) mostram a dimensão do problema: ao menos 900 meninas e mulheres foram atendidas diariamente em unidades de saúde de todo o Brasil, no ano passado, por terem sido vítimas de violência.
O cenário também aparece nos registros de segurança pública. No Rio Grande do Sul, dados atualizados pela Divisão de Proteção e Atendimento à Mulher da Polícia Civil apontam 52 feminicídios em 2026.
Violência começa antes da agressão física
Para a psicóloga Camila Saraiva, um dos principais pontos para compreender os efeitos da violência é reconhecer que ela pode assumir diferentes formas. Segundo ela, a violência física costuma receber mais atenção justamente por deixar marcas visíveis, mas geralmente não surge de maneira isolada.
“Muitas vezes, a violência começa de uma forma mais sutil, por meio de controle, de desvalorização, do ciúme excessivo, do isolamento e da tentativa de limitar as relações daquela mulher”, explica.
Com o avanço desse comportamento, a vítima pode se afastar de amigos e familiares e passar a viver uma situação de grande solidão. Psicologicamente, isso pode provocar tristeza, medo, ansiedade e insegurança, além de comprometer progressivamente a autoestima.
A mulher também pode começar a questionar a própria percepção da realidade, acreditando que está exagerando ou interpretando determinadas situações de maneira equivocada. Em casos mais graves, pode chegar a acreditar que merece aquilo que está vivendo ou que é responsável pelas reações do agressor.
“É muito importante a gente entender os processos psicológicos da violência e que eles começam muito antes de existirem marcas físicas. O controle e a desvalorização também são formas de violência”, afirma Camila.
Romper não é uma decisão simples
A permanência em uma relação abusiva muitas vezes é interpretada de maneira simplista, como se dependesse apenas da vontade da vítima. Para a psicóloga, porém, diversos fatores emocionais, sociais e econômicos podem dificultar o rompimento.
Algumas mulheres cresceram em ambientes nos quais a violência fazia parte das relações familiares e podem ter aprendido a enxergar determinados comportamentos como normais. Também existe o chamado ciclo da violência, no qual períodos de agressividade podem ser seguidos por pedidos de desculpas, arrependimento e promessas de mudança.
Esse processo pode gerar ambivalência e dificultar o reconhecimento de que a relação é violenta. Somam-se a isso questões concretas, como dependência financeira, filhos, falta de rede de apoio, medo de retaliação e o isolamento provocado pelo próprio agressor.
“Conhecer a violência e conseguir sair dela não é só uma decisão individual, é um processo. É um processo atravessado por aspectos emocionais, sociais, econômicos e, muitas vezes, pelo próprio risco à vida dessa mulher”, destaca.
Denúncia é começo de uma reconstrução
A denúncia pode representar um momento de ruptura e, para algumas mulheres, trazer alívio por finalmente conseguirem nomear a violência e buscar proteção. Entretanto, isso não significa que os efeitos psicológicos desapareçam imediatamente.
Após denunciar, podem coexistir sentimentos como alívio, medo, culpa, insegurança, tristeza e dúvidas sobre a própria decisão. A mulher também pode enfrentar preocupações relacionadas à segurança, aos filhos, às condições financeiras, ao julgamento da família e da sociedade e ao próprio processo de Justiça.
“Denunciar exige muita coragem e, principalmente, uma rede de apoio. A denúncia não encerra imediatamente os efeitos psicológicos da violência. Muitas vezes, ela é só o início de um processo de reconstrução que precisa ser acompanhado”, afirma Camila.
A necessidade de proteção também aparece nos números. Segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), quase 950 mil medidas protetivas de urgência foram requeridas no país no ano passado.
Reconstruir a própria identidade
O afastamento do agressor, embora fundamental para a segurança, não significa necessariamente o fim das consequências psicológicas. Depois do rompimento, a mulher pode precisar reconstruir relações familiares e de amizade, retomar a vida profissional, reorganizar a rotina e recuperar a autonomia.
De acordo com Camila, relações abusivas podem afetar profundamente a percepção que a mulher tem de si mesma. Depois de tanto tempo sendo controlada, desvalorizada ou tendo suas escolhas questionadas, ela pode perder referências sobre quem é, do que gosta e o que deseja para a própria vida.
“Por isso, a reconstrução envolve não apenas estar fisicamente afastada do agressor, mas também se reconectar consigo mesma. É um processo de recuperar autonomia, identidade, confiança e a possibilidade de construir relações mais saudáveis”, explica.
O julgamento social, entretanto, pode dificultar esse processo. Perguntas sobre por que a mulher permaneceu na relação, por que não denunciou antes ou por que ainda sente falta do agressor podem aumentar a culpa e a sensação de solidão.
Trauma não precisa definir o futuro
Para a psicóloga, porém, o trauma não deve ser encarado como uma sentença permanente. Com segurança, apoio e, quando necessário, acompanhamento psicológico, é possível elaborar a experiência e construir novas formas de se relacionar consigo mesma e com o mundo.
“A psicoterapia pode contribuir justamente nesse processo. Não para fazer com que a mulher esqueça o que aconteceu, mas para que aquilo que aconteceu deixe de ocupar o mesmo lugar na vida dela”, afirma Camila.
Onde buscar ajuda
Mulheres vítimas de violência podem buscar orientação e apoio por meio da Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180. O serviço é gratuito e funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana, oferecendo informações sobre direitos, leis e serviços especializados da rede de atendimento. A Central também recebe e encaminha denúncias aos órgãos competentes e registra reclamações.


