A média anual do acumulado de chuvas para Passo Fundo é de 1.931mm, segundo à Normal Climatológica 1991-2020 do INMET. Isso não significa que este é o volume de cada ano e, muito menos, que seja distribuído de forma harmônica nos 12 meses do ano. As variabilidades das condições meteorológicas propiciam períodos de muita ou pouca chuva. A inconstância resulta em condições extremas entre as estiagens e as enchentes. A volubilidade, em alguns momentos, deixa a agricultura na corda bamba. Ou, ainda, coloca em alerta os sistemas de defesa civil. Porém, sabe-se que a temperatura das águas do Pacífico Equatorial serve como indicativo de como o tempo irá se comportar por aqui.
Enchente de 2024
Se na astrologia a conjunção de corpos celestes dá às cartas, na meteorologia existem três elementos regentes: El Niño, La Niña e neutralidade. “A partir de 0,5ºC a mais ou 0,5ºC a menos da temperatura normal surgem os indicativos de ocorrência de El Ninho e La Niña, que atuarão sobre a nossa região”, detalhou o analista Aldemir Pasinato, da Embrapa Trigo em Passo Fundo. Enquanto o termômetro detectava águas mais quentes no Pacífico, no ano passado tivemos o efeito de El Niño por aqui. Foi a chuvarada que provocou a trágica enchente no Rio Grande do Sul. “Em 2024, aqui em Passo Fundo, foram 2.476mm de acumulado”.
Seca e chuvas constantes
Em 2025, as influências ficaram por conta de La Niña. “Nos quatro primeiros meses os acumulados chegaram a 300mm e ficaram abaixo da média que é de 598mm, praticamente a metade esperada para o período”, avaliou Pasinato. Mas, já em período de neutralidade, sem travessuras dos Niños, a chuva chegou forte para compensar a seca. “Em maio e junho o acumulado foi de 608mm, quase o dobro da média dos meses que é de 312mm. Em maio teve 182mm, um pouco acima da faixa mensal de 153. Já em junho choveu 425mm, portanto 267 acima da média do mês que é de 158mm”, detalhou.
A seca de julho
O segundo semestre começou com números áridos. Até a quarta-feira, 23, pingaram apenas 7mm na Estação Meteorológica da Embrapa. “Isso representa apenas 4% da média de julho que é 163mm”. Passando a régua nos primeiros sete meses, de janeiro a julho foram 915mm. Pasinato aponta que “está um pouco abaixo, 15%, pois a soma do esperado para os sete primeiros meses é de 1.073mm. Porém, julho deve terminar apenas um pouco abaixo da média. Como há expectativa de 50mm para o domingo, segundo o INMET, ou até 80mm, praticamente haverá um equilíbrio no acumulado deste ano”.
Agosto úmido
Para agosto, o analista diz que prevalece a neutralidade sem a influência de Los Niños. Isso, é claro, sem perder as características do inverno. “Condições de neutro para mais frio. A chuva pode ficar no normal ou acima da média. Terá mais umidade, especialmente na primeira quinzena, quando há tendências para a chegada de novas frentes frias. A temperatura de normal para abaixo da média e bastante variabilidade no tempo. Para agosto a tendência é de normalidade.”
O retorno de La Niña
Mas tudo pode mudar com as flores da primavera. “De acordo com o último prognóstico da NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos) persiste a tendência para termos o fenômeno La Niña. Há uma probabilidade de 50% para atuação a partir do final do inverno e início da primavera. Também aponta 45% para neutralidade”. Confirmado o desembarque de La Niña, teremos chuvas irregulares e temperaturas mais baixas. Isso, com muita variabilidade. “São períodos curtos com chuva ou períodos longos sem ou com poucas chuvas”. Segundo o prognóstico da NOAA, após setembro, as condições de La Niña devem permanecer por no mínimo mais três meses.
Trigo necessita do frio e da chuva em dosagem adequada
Se os dias secos auxiliaram na semeadura, agora as culturas de inverno estão à espera de uma chuva na medida certa. O engenheiro-agrônomo Oriberto Antônio Adami, supervisor regional da Emater-RS (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural) na Região de Passo Fundo, informa que o plantio chegou a 100% da área. “Atrasou um pouco, mas não houve prejuízo”. Nos 42 municípios da Regional, o trigo cobre 108 mil hectares, a aveia branca 45 mil, a aveia preta 12 mil e a canola, que este ano dobrou a área, está em 6.300 ha.
Chuva e frio
Oriberto explica que, “o tempo ajudou no plantio e agora a chuva é importante. Para o trigo a chuva é fundamental, pois ainda está com pouca raiz. Não uma chuvarada, porque a estrutura radicular ainda é frágil”, avalia. Além disso, o frio tem papel fundamental na saúde das jovens plantinhas. “A temperatura mais baixa é importante na fase inicial para evitar a formação de doenças fúngicas”. Em setembro e outubro estará em formação. Em seguida, entra no período de floração e formação de grãos. “O trigo é mais sensível às doenças que podem causar perdas de qualidade”. Porém, os prognósticos da meteorologia apontam para bons resultados na colheita que inicia em novembro.


