A proximidade do inverno reacende a preocupação com o avanço do fenômeno El Niño e seus possíveis impactos sobre o Rio Grande do Sul e os demais estados da região Sul do Brasil. De acordo com a meteorologista da Climatempo, Cátia Valente, as águas do Oceano Pacífico estão aquecendo de forma mais acelerada que o normal, o que indica a consolidação do fenômeno já nas próximas semanas.
A especialista, em entrevista à Rádio UPF, afirmou que a expectativa é de um El Niño de intensidade forte a muito forte, com efeitos perceptíveis ainda durante o inverno e pico previsto para a primavera. O cenário preocupa principalmente devido ao histórico recente de eventos extremos registrados no Sul do país, especialmente no Rio Grande do Sul.
Segundo Cátia, o comportamento atual do Pacífico chama atenção pela velocidade do aquecimento. Tradicionalmente, o oceano inicia esse processo nesta época do ano em períodos de El Niño; porém, em 2026, o avanço está ocorrendo de maneira mais intensa. “A expectativa é de que, ao longo dos próximos meses, o oceano siga aquecendo. O El Niño deve se consolidar já durante o inverno, fazendo com que os impactos sejam sentidos mais cedo”, explica.
Inverno deve ter mais chuva e temperaturas menos rigorosas
A principal consequência da atuação do El Niño no Sul do Brasil será o aumento das chuvas acima da média histórica. Conforme a meteorologista, o inverno tende a ser mais úmido e menos rigoroso em relação às temperaturas. Embora as massas de ar polar continuem avançando sobre o estado, a tendência é que os períodos de frio intenso sejam menos duradouros. Isso ocorre porque o aumento da umidade dificulta a permanência das massas de ar frio sobre a região.
“As entradas de ar frio continuarão acontecendo, mas elas devem ocorrer de forma menos frequente e perder força mais rapidamente. O El Niño favorece uma atmosfera mais úmida, e isso interfere diretamente no comportamento das massas de ar polar”, destaca.
A previsão também aponta maior frequência de frentes frias acompanhadas de chuva, além de períodos de instabilidade mais prolongados.
Primavera concentra maior risco de tempestades severas
Apesar de os primeiros efeitos já serem esperados para o inverno, o auge do fenômeno deve ocorrer durante a primavera. Segundo Cátia, essa é justamente a estação em que as condições atmosféricas já favorecem naturalmente a formação de temporais.
Com o aumento gradual das temperaturas ao longo da primavera, cresce também o potencial para tempestades severas. A combinação entre calor, umidade e atuação do El Niño pode ampliar significativamente o risco de eventos extremos. “Quando temos um El Niño atuando, esse potencial aumenta muito. Em alguns casos, a chance de eventos extremos pode crescer entre 50% e até 100%”, afirma.
Entre os fenômenos mais comuns estão temporais acompanhados de ventos fortes, granizo, descargas elétricas e grandes volumes de chuva em curto período de tempo. Além disso, frentes frias podem permanecer estacionadas sobre o Sul do Brasil, elevando ainda mais os acumulados de precipitação.
Comparação com as enchentes de 2024 exige cautela
Ao analisar possíveis comparações com as enchentes históricas registradas no Rio Grande do Sul em 2024, a meteorologista afirma que o cenário atual exige atenção, mas ainda não permite previsões semelhantes. Ela lembra que, no período das enchentes, o El Niño já estava enfraquecido. Porém, diversos fatores se combinaram para potencializar os impactos climáticos.
Entre eles estavam os elevados volumes de chuva registrados ao longo de 2023, que deixaram rios em níveis altos e o solo completamente saturado. Além disso, houve influência do Oceano Atlântico aquecido, de corredores de umidade vindos da Amazônia e da permanência de frentes frias estacionárias sobre o estado. “Foi uma combinação de fatores. O cenário hidrológico já era extremamente desfavorável antes da enchente de 2024 acontecer”, ressalta.
Conforme Cátia, naquele período algumas regiões chegaram a registrar entre 400 e 500 milímetros de chuva em poucos dias, situação agravada pelo bloqueio atmosférico que impedia o deslocamento das frentes frias para outras áreas do país.
Histórico de El Niño forte preocupa
Cátia lembra que outros episódios de El Niño forte ou muito forte já provocaram impactos significativos no Sul do Brasil ao longo das últimas décadas. Entre os principais eventos estão os registrados em 1982, 1983, 1997, 1998, 2015, 2016 e também em 2023.
Esses períodos foram marcados por excesso de chuva, enchentes, ciclones extratropicais e temporais severos em diferentes regiões do país. Mesmo assim, a meteorologista ressalta que cada evento possui características próprias e que os efeitos variam conforme a combinação das condições climáticas presentes em cada ano.
Diante da possibilidade de um novo El Niño intenso, a orientação é de atenção redobrada e preparação preventiva, especialmente em áreas historicamente afetadas por enchentes e deslizamentos. “O principal agora é monitoramento e preparação. Precisamos acompanhar semanalmente a evolução do oceano e das condições atmosféricas para entender como esse cenário vai evoluir”, conclui.



