OPINIÃO

Vinte e sete de novembro de 1985

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Vinte e sete de novembro de mil novecentos e oitenta e cinco é uma data singular no universo borgeano. Assinala o último compromisso público que teve a participação de Jorge Luis Borges em Buenos Aires. No dia seguinte, acompanhado de Maria Kodama, partiria rumo à Itália, para cumprir agenda de trabalho, e, de lá, rumaria para a Suíça, onde morreria, no dia 14 de junho de 1986, e estão sepultados os seus restos mortais.

A maioria das biografias de Borges, sobre esse momento, limita-se a descrever que ele passou aquela tarde (27/11/1985) na livraria de Alberto Casares, autografando obras, na companhia de amigos e, depois de muito tempo, teve a oportunidade de reencontrar e se despedir de Adolfo Bioy Casares. Mas, há bastidores desse ultimo momento público de Borges na Argentina cujos detalhes podem ser encontrados no livro “Borges: la posesión póstuma”, de Juan Gasparini, pelas edições FOCA, ano 2000, e no documentário “Lugares con Genio - Buenos Aires de Jorge Luis Borges”, disponível no YouTube (https://www.youtube.com/watch?v=hR3UZxju2Hs), em que Fernando Savater entrevista Alberto Casares e esse revela como o evento realizado na sua livraria, então localizada na Calle Arenales, 1723, efetivamente se deu.

Alberto Casares contou que durante um mês diligenciou tratativas diárias com Borges, por telefone, sempre às 10h da manhã, visando à organização de uma exposição das primeiras edições das suas obras. Borges, na ocasião, padecendo e um câncer no fígado, aceitou participar. Inclusive a data foi sugerida por ele, sob a alegação que no dia seguinte partiria para a Itália. Sobre as primeiras edições de suas obras, Borges tinha uma opinião peculiar: não possuía nenhum exemplar e dizia que não lhe interessavam as primeiras edições, mas sim as segundas, terceiras e assim por diante. Também, no primeiro momento, não queria a exposição de livros que ele, inclusive, negara que havia escrito: “Inquisiciones” (1925), “El tamaño de mi esperanza” (1926) e “El idioma de los argentinos” (1928). Depois assentiu, pois se eram de interesse do público não havia razão para não expô-los.

Foram reunidas, com a colaboração de bibliófilos, 107 peças representativas das primeiras edições das obras de Borges, avaliadas, na ocasião, em 70 mil dólares. Inclusive os desenhos originais de Norah Borges, a irmã, usados como capas de alguns dos seus livros, a exemplo de “Fervor de Buenos Aires”.

Na data marcada, como de costume, sempre as 10 h da manhã, Alberto Casares ligou para Borges para combinar os detalhes do encontro das 14h. Foi surpreendido pela negativa do escritor em participar da inauguração das suas primeiras edições. Alegou que partiria para a Europa naquela tarde. Alberto Casares ficou desanimado. O homenageado não iria e isso tiraria o brilho do evento. Trocou algumas palavras com amigos e esses lhe aconselharam a falar com Fani (Epifanía Uveda de Robledo), a leal escudeira de Borges. E assim ele fez, às 11h30. Fani aconselhou Alberto a ligar às 14h, quando o senhor Borges estaria sozinho. Alberto Casares fez a ligação telefônica sugerida. Borges atendeu e disse “pero Casares, ¿qué está esperando que no me viene a buscar?”

Marta Casares, esposa de Alberto, foi encarregada de buscar o homenageado que se mostrou bem disposto, falante, autografou obras diversas e nem parecia um homem doente, que estava fazendo a última aparição pública na sua cidade natal. Os presentes, apesar da idade avançada do escritor, não suspeitaram que fosse um adeus. Não levaram a sério a resposta que Borges deu à pergunta quando voltaria à Argentina: “yo no vuelvo porque estoy muy enfermo.” Ficou na livraria até 21h, quando Marta Casares levou-o de volta para casa.

No dia seguinte (28/11/1985), Borges recebeu a visita de médicos, almoçou com a irmã Norah no Hotel Dorá, voltou para casa, dormiu uma “siesta”, despertou e às 16h45 chegou o “remises” (carro de aluguel) com Maria Kodama para levá-lo ao aeroporto. Estava muito debilitado. Tinha consciência que deixava Buenos Aires para morrer em Genebra.

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