OPINIÃO

FESTA DE SÃO MIGUEL: PALCO DE DIVERSÕES E CONFLITOS

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A romaria e festa em honra a São Miguel Arcanjo mobiliza devotos passo-fundenses e de outros municípios desde 1871. Criada como agradecimento ao santo guerreiro, protetor dos oprimidos, sua tradição se consolidou e movimenta ainda hoje a comunidade em sua organização e realização. Surgida em torno da imagem do arcanjo, que teria sido trazida pelos negros Generoso e Isaias da região missioneira, quando do seu retorno da Guerra do Paraguai (1864-1871), como narram as memórias sobre a festa, a imagem missioneira em madeira segue sendo o centro votivo que move fiéis a percorrer quilômetros até a Capela do Pinheiro Torto.

Registros da festa indicam que foi, em suas primeiras décadas de realização, uma festa “muito concorrida”, que incluía procissão, missa, batismos e casamentos, comércio de alimentos e bebidas, shows musicais, coleta de doações, bandeiras, leilão de prendas e muita concorrência de pessoas de todas as idades. Como muitas famílias e grupos partiam de suas residências com dias de antecedência e acampavam no local, atividades de todo tipo acabaram por instalar-se nas redondezas, provendo as necessidades dos devotos. Registros dão conta de maxixes (danças), desregramentos de costumes e “excessivas alegrias” que acabam por gerar, como narra O Nacional de 07 de outubro de 1925, o policiamento no Pinheiro Torto e como resultado, algumas prisões por desordens. Naquele ano o festeiro responsável providenciou um segundo salão de danças para comportar o público que prestigia o evento devocional.

No ano seguinte a festa foi realizada com grande concorrência de público, que teve oportunidade de saciar, além da alma, o corpo com as vendinhas de cervejas, gasosas, pão de ló, pé de moleque, cocadas e bolinhos. Todavia, para o articulista de O Nacional, outra foi a impressão geral sobre a festa e, em tom nostálgico, expressava: “Não mais apreciamos, entretanto, aquelle desfilar lento e contínuo dos mais variados vehiculos que constituía um dos divertimentos do dia, por ser quase uma curiosidade. O automóvel tudo matou. Os carros, tirados por animaes que apenas o correame mantinha em pé, de magresa e cançasso, as alegres carroças puchadas por ternos reluzentes de mulas gordas, de colônia, as aranhas pre-historicas de todas as cores, toda aquella classe variada de coisas rodantes e curiosas que pareciam brotar do chão especialmente para São Miguel, tudo isso desapareceu para dar lugar á corrida vertiginosa de autos e caminhões. Modernisou-se o Pinheiro Torto.” Saudoso do passado nem tão distante, o jornalista ainda lembrou que naquela festa ninguém lembrou de brigar, dar tiros e não houve choques de automóveis. Foi uma festa tranquila, cujo policiamento esteve na estrada e na festa.

Essa recorrência em lembrar que a romaria e festa também era palco de desavenças e que o policiamento foi necessário e eficaz para dirimir conflitos, como que “caiu por terra” na festa de 29 de setembro de 1927 quando o evento teve um “trágico desenlace”. Segundo a reportagem, da edição de 01 de outubro, a festa estava transcorrendo normalmente até que ao meio da tarde um conflito violento se estabeleceu, gerando uma debandada de devotos e muita apreensão. O estopim teria se dado com uma desavença entre os praças do 2º. Batalhão do 8º. Regimento de Infantaria e os jogadores do S. C. Gaúcho, que solicitaram auxílio da polícia. Foi então que o conflito de forças iniciou com policiais e soldados trocando tiros. O saldo, segundo O Nacional, foi de 6 feridos – civil, praças e soldados - e a morte do cabo Alcides. E a situação se aguçou, como destaca o autor, “Essa impressão má augmentou ainda quando se soube que se dirigia para o Pinheiro Torto, armado de fuzis, um contingente de mais de trinta praças do 2º. Batalhão. Desde logo a possibilidade de hostilidades entre esse contingente do exército e a pequena força policial que se mantinha em S. Miguel, sob a direcção do sr. Gervasio Annes, sub intendente e delegado de policia, desenhou-se em todos os espíritos augmentando a preocupação geral”. Os soldados do exército mantiveram-se em linha no campo fronteiriço à capela, e a política ficou próxima, mas nada mais ocorreu.

Por prudência, o Delegado aquartelou os policiais, enquanto patrulhas armadas do exército percorreram a zona urbana durante a noite. No dia seguinte o Sub-Intendente Gervásio Araújo Annes manteve sua posição em Aviso público, também publicado pel´O Nacional no dia 01 de outubro, no qual consta que o policiamento só seria restabelecido quando "as altas autoridades militares garantam o restabelecimento da ordem e da vida constitucional em nosso meio." Pela falta de novas notícias, induzimos o arrefecimento dos ânimos e o restabelecimento imediato da ordem entre os envolvidos.

De uma romaria e festa que foi progressivamente controlada visando coibir “excessos” e desregramentos, assim como conflitos, São Miguel tornou-se palco de um violento embate entre forças de segurança que movimentaram e tensionaram os poderes municipal e federal em Passo Fundo. A grandeza da festa de 1927 fora suplantada pelos graves incidentes ocorridos que causaram furor entre os presentes à festa e tensão entre os habitantes da cidade. O “trágico desenlace”, todavia, não apagou o apelo do arcanjo ante seus devotos que retornaram e retornam anualmente à Capela para pagar promessas, suplicar auxílio, orar, receber bênçãos, festar e divertir-se. Lá se vão 154 anos dessa tradição votiva e festeira que promete, em 2025, uma grande festa.

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