Quem chegar ou sair pelo aeroporto regional de Passo Fundo vai se deparar com uma placa, padrão oficial da ANAC, identificando o aeródromo como “Aeroporto Lauro Kurtz”. Esse fato pode não chamar a atenção de muita gente, mas, para os minimamente familiarizados com a história do aviador Lauro Kortz, percebem que, nesse caso, está sendo prestada homenagem a outro Lauro ou ao Lauro errado. Lauro Ignacio Kortz nasceu no município de Estrela/RS, em 27 de julho de 1917. Filho de Leonardo Kortz e Elisa Nicolina Fischer, era o penúltimo de uma prole de dez irmãos. A família, certamente, não passou necessidades: em Estrela, o pai havia sido conselheiro municipal, de 1908 a 1912, além de ser empresário do ramo da fabricação de bebidas. Embora não tenhamos como aprofundar a história dos seus primeiros anos de vida, para além das boas condições financeiras da família, sabemos que Lauro Kortz, antes de 1938, já havia se estabelecido em Passo Fundo, atuando no comércio. Nesse mesmo ano, casou-se com Lourdes Barbisan, com quem ao longo dos anos vindouros teria os filhos Lenita Maria, Eliza e Luiz Carlos.
Lauro Kortz ingressou no Aeroclube de Passo Fundo, criado em 29 de outubro de 1940, na localidade de São Miguel, e obteve notoriedade. Por dois anos seguidos, se distinguiu entre os colegas aviadores ao conquistar o prêmio “Dr. Gelso Ribeiro”, uma estatueta de bronze entregue à guarda do vencedor da prova de aterrissagem realizada na “Semana da Asa”, evento que era promovido anualmente pelo Aeroclube. Ao concluir os estudos teóricos e práticos, tornou-se o primeiro piloto brevetado do Aeroclube de Passo Fundo. Isto é, o primeiro a conseguir o “brevet”, a carteira de habilitação de piloto, vindo, posteriormente, a se tornar instrutor de voo no mesmo Aeroclube.
Habilitado como piloto, Lauro Kortz, em março de 1948, após meses de treinamento no Rio de Janeiro, foi aprovado, em concurso realizado na capital federal, para ingressar nas fileiras da aviação comercial, como “piloto de turismo”, designação então usada para o posto de piloto comercial. Na sequência, Kortz foi contratado pela Sociedade Anônima Viação Aérea Gaúcha (SAVAG), o que foi festejado pelos membros do Aeroclube de Passo Fundo, autoridades locais, família e amigos, em uma grande comemoração no Café Elite. A cerimônia foi, ao mesmo tempo, uma homenagem e uma despedida ao piloto, que deveria deixar Passo Fundo para o exercício de sua profissão.
A atuação de Lauro Kortz na aviação comercial, entretanto, não foi longa. Após cerca de 9 meses atuando no comando de diversos voos pela SAVAG, pilotando o modelo bimotor Lockheed L-18 Lodestar, principal aeronave da empresa na época, a carreira do jovem piloto de 31 anos foi interrompida por um acidente que lhe ceifou a vida.
Na tarde de 11 de janeiro de 1949, a aeronave Lodestar PP-SAC, que fazia o trecho de Bagé a Pelotas, sofreu uma pane em seus motores e, descontrolada, caiu no Canal São Gonçalo, vitimando a tripulação e os passageiros, contabilizando 8 mortos. No comando da aeronave, estavam Nelio Pegas, piloto, e Lauro Kortz, copiloto. Nesse mesmo dia, o jornal O Nacional noticiou que havia ocorrido um “Lutuoso desastre aviatorio próximo a Pelotas!”, e que este havia vitimado aviador civil Lauro Kortz.
No dia 12 de janeiro de 1949, os restos mortais de Lauro Kortz chegaram a Passo Fundo, por ironia do destino, de avião. O corpo foi velado na residência da família Barbisan, na Rua Moron, seguindo-se um cortejo fúnebre que conduziu o féretro até a Igreja Matriz, onde foi realizada a encomendação do corpo, antes de seguir para o Cemitério Vera Cruz, local do sepultamento.
Anos mais tarde, no ano de 1957, quando Passo Fundo completava o seu Primeiro Centenário, o então deputado federal Daniel Dipp apresentou um Projeto de Lei para denominar o novo aeroporto de Passo Fundo como “Aeroporto Lauro Kortz”, em clara homenagem ao desafortunado aviador. O projeto, posteriormente, foi aprovado pela Lei nº 3559, assinada pelo Presidente Juscelino Kubitschek, em 5 de junho de 1959.
A instigante história do aviador Lauro Kortz, que, inequivocamente, o Projeto de Lei apresentado em 1957 quiz reverenciar, precisa ser conhecida e o erro histórico da denominação do nosso aeroporto corrigido. Assim, não resta dúvida que, apesar da placa que recepciona os viajantes no aeroporto, o Lauro era Kortz, e não Kurtz!


