OPINIÃO

Conjuntura Internacional

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Bons estudiosos de Relações Internacionais têm algo em comum: as suas hipóteses ou teorias são, no mínimo, relativamente duráveis. Com uma política internacional complexa e dinâmica, somado ao fator do imprevisível, conseguem ao menos, a partir de uma leitura específica, fazer um prognóstico, mesmo que mínimo. Olhando para o mundo de hoje, recordei-me de um livro que me fora introduzido pelo meu orientador no mestrado, Dr. Raúl Enrique Rojo, sociólogo argentino com formação na França, um verdadeiro intelectual, com quem pude divisar inúmeras conversas. Rojo foi orientado, em seu doutorado na França, por Alain Touraine. Em uma de nossas conversas, ele indicou-me um livro de 1995, de dois grandes especialistas em Relações Internacionais: Bertrand Badie e Marie-Claude Smouts. Detalhe, o livro antecipa cenários precisos, que observamos ainda hoje na política internacional. 

A viragem

A introdução é um prenúncio: “o sistema internacional tornou-se o mais instável de todos os sistemas políticos. Composto por uma 'infinidade de unidades' sem que saibamos isolar suas leis nem traçar o seu futuro”. De fato, o sistema internacional diluiu-se em individualidades, os líderes internacionais e suas intenções, pouco importando regras, senão a imposição de agendas. Para Badie, três palavras seriam as mais recorrentes na política internacional: "caos", "turbulências" e "ilhotas de estabilidade". Há uma passagem altamente reflexiva no livro, para os tempos de hoje: “abundam os inventários sobre os meios de poder. Cada período de mudança faz surgir novos profetas com sua pedra filosofal e a sua certeza de terem encontrado a própria essência de tal relação;” [grifo nosso]

Ordem Internacional ou individual?

A política internacional ruiu e não é mais uma configuração justaposta de soberanias nacionais, senão um mundo regido pela “fluidez das fidelidades e a atomização das políticas externas”, cujo objetivo final é a fragmentação. Nunca estivemos em um mundo tão fragmentado: soberanias relativizadas, líderes cada vez mais emancipados. A viragem busca novas unidades, rupturas e um processo de individualização [que transforma o Estado em uma pessoa que busque preconizar] , dispostas a chamarem a atenção como, em um concurso de liderança internacional, para ver que tem mais poder. Trump tem sua a agenda (acertada em vários pontos e gostaria de um Nobel da Paz), Putin é um aventureiro soviético com fetiches territoriais, Zelensky um novo “Rambo”, ávido por armas, Macron quer lacrar, Lula se considera uma “liderança mundial”, que entregará a COP30 mais brega (um show de 30 milhões com dinheiro público, em uma simulação de muito mal gosto de vitória-régia) e esvaziada. 

Profecia 

Conclui Betrand Badie: “ao mesmo tempo, a fragilização da diplomacia clássica favorece, no próprio seio dos Estados, a personalização das tomadas de decisão” e continua: “a existência mais ou menos discreta de uma patrimonialização das diplomacias contribui para tornar mais incerta a procura de consenso [...] a plasticidade das fidelidades, ligada à atomização das políticas estrangeiras, fragmentando e desagregando. A grande questão é: será que Trump conseguirá desfragmentar a política internacional. Já vem dando mostras mais efetivas que a ONU, ou seria mais um, como disse Badie, “um profeta com sua pedra filosofal”. A ver como dar-se-á o “jogo” internacional – mas o único e grande líder fragmentador, no momento, é Trump. A ver se os postulados de Badie se sustentam. Até hoje, sim.

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