O momento é oportuno para olharmos para trás, a fim de identificar os eventos-chave que modificaram tanto a geopolítica como a geoeconomia, em um ano de profundas transformações, embaladas, em alguns pontos, pela ascensão de Trump no seu novo mandato. Antes disso, já estávamos passando por um processo de "recessão geopolítica", com a falência do multilateralismo e o retorno da realpolitik, ou seja, da imposição de vontades das principais potências mundiais. Até o fim deste ano, o que observamos, Raymond Aron, um dos maiores sociólogos das Relações Internacionais, havia apontado em sua obra magna "Paz e Guerra entre as Nações" (ainda da década de 1960), quando ponderava sobre a "paz de hegemonia", quando uma superpotência econômica e militar consegue estabelecer uma paz relativa. A verdade é que os EUA, depois da desastrosa política externa de Biden, iniciaram uma reconfiguração do sistema internacional, proporcionando inclusive alguns processos de cessar-fogo.
Novas realidades
O fim do multipolarismo e das organizações internacionais, principalmente as Nações Unidas, abriu o campo para que grandes potências viessem a operar por zonas de influências definidas, como EUA, China, Rússia e a Europa [essa em uma posição mais desconfortável], por meio de barganhas eventuais. A corrida armamentista voltou a ser uma das pautas centrais no tabuleiro geopolítico, além dos aspectos geoeconômicos como sanções, tarifas, restrição a recursos críticos e estratégicos, além do plano de fundo de uma "Guerra Fria" tecnológica na área de chips, semicondutores etc.
Uma paz impossível?
Vimos, de toda a sorte, as inúmeras rodadas de negociação para um cessar-fogo entre a Rússia e a Ucrânia, a fim de se colocar um ponto final em uma guerra de atrito altamente custosa para civis e soldados. Putin, ainda preso à mentalidade soviética, torna qualquer plano um problema, até aqueles que lhe fazem concessões demasiadas. O que vimos foi a desinformação na prática: toda vez que uma possível negociação poderia sair do papel, no dia seguinte Putin continuava a bombardear a Ucrânia. Essa conjuntura toda abriu um risco à Europa. Com Trump no poder, os europeus se puseram para fora de uma zona de conforto, criando o seu próprio programa de rearmamento. A defesa voltou ao palco da geopolítica.
Oriente Médio
A região passou, neste ano, por profundas transformações. Novas frentes de batalha em Gaza e, principalmente, a incursão cirúrgica no Irã, com apoio tardio americano, para debelar o projeto nuclear dos aiatolás. O conflito segue, na medida em que os terroristas do Hamas não querem depor as armas e nem Israel retroceder com suas tropas, ao mesmo tempo em que, internamente, Netanyahu é posto à prova, com grande oposição e um pedido de perdão, o qual o presidente Isaac Herzog terá de avaliar nas próximas semanas.
O silêncio
No Indo-Pacífico brotaram diversas questões regionais envolvendo a China, Taiwan, Japão e Coreia do Norte. O Japão quer mostrar sua força também. A China, que reivindica o Mar do Sul Meridional, mantém-se em silêncio sobre Taiwan, mas o desiderato é quase irreversível. A região é uma das principais rotas marítimas internacionais aos navios comerciais e ao fluxo de bens, tornando o mar uma forte variável em 2025.
2025
O ano ficou marcado pelo retorno da realpolitik, de uma recessão geopolítica, da emergência de um complexo geoeconômico, prometendo para 2026 diversas e relevantes tendências e riscos geopolíticos acentuados, que vamos abordar na próxima coluna. Até lá, desejo a todos os leitores um Natal abençoado!

