Estima-se que a roda tenha sido inventada há mais de cinco mil anos.
Primeiro, como um disco rotativo para moldar argila com precisão. Por cerca de trezentos anos, serviu ao inocente propósito de refinar utensílios domésticos e envasar lírios e crisântemos.
Em algum momento, entretanto, alguém teve a ousada ideia de atravessá-la com uma barra no meio. Pode ter sido um gênio da engenharia ou apenas um sujeito farto de seu ofício de ceramista. Mas foi essa gambiarra que revolucionou a agricultura, o comércio, o transporte, a logística, as guerras e os veraneios no litoral de Santa Catarina. A roda elevou o temperamento humano à maturidade de suas próprias soluções. Antes, toda tecnologia espelhava-se em análogos observados na natureza. Nem sempre funcionava. A uva passa fora um equívoco. Alguém implicou com o sabor doce e a textura fresca e decidiu que era melhor esperar até que ficasse podre e enrugada.
Alguém pior ainda depois resolveu misturá-la no arroz.
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A roda como ferramenta de carga surgiu em um momento extremamente importante para a humanidade.
A Mesopotâmia despontava como berço da civilização. A primeira metrópole da história vivia o auge da construção civil. A Mesopotâmia era uma espécie de Vila Rodrigues à espera de uma filial das Farmácias São João. Ruas e becos surgiam e sumiam ao frescor do progresso. Os escândalos de Sodoma, Gomorra e Noronha só viriam à tona milhares de anos depois, mas é provável que o Gheta tivesse ficado possesso com o poder público – o que teria antecipado Gutemberg em cinco mil anos.
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A roda significou a prevalência do conforto físico sobre o sacrifício do esforço bruto.
Como não se tem nenhum registro sobre o sujeito que inventou a roda, é razoável supor que ele não tenha sido devidamente recompensado em vida com fama, fortuna e uma agenda social intensa.
Uma pena.
Tivesse apenas arremessado aquela roda com a força dos próprios punhos, não existiria Uno Mille.
Mas teria inventado o crossfit.
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Têmis e Perséfone
Ao ser atacada nas redes sociais por seguidores insatisfeitos com o resultado da rinoplastia, uma influenciadora fez um desabafo legítimo. Lapidar os próprios contornos nasais não fora um gesto de vaidade – ao contrário: fora um gesto de amor; de amor de mãe. Alguns pontos assimétricos de seu nariz haviam deixado traumas de aparência que, muitas vezes, afetam profundamente a saúde mental e a autoestima.
Não deixaria que o mesmo se repetisse com seus filhos, mesmo que ainda não os tivesse. Mas, como pretendesse, seu novo nariz arrebitado certamente os protegeria de futuras chacotas físicas.
O raciocínio só não é brilhante porque falha justamente naquilo que se entende por raciocínio e por brilhantismo.
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O episódio reforça uma teoria que venho desenvolvendo há tempos e que cada vez mais se confirma, apesar de seu caráter muito mais empírico do que científico.
Remonta à pandemia. Entre tantos contratempos graves, pouco se observou sobre as sequelas de tanto tempo vestindo máscaras em nossas identidades e na autoimagem que deixamos de projetar nos outros. Por muito que não houvesse motivos para sorrir, as bocas foram abruptamente impedidas de existir na paisagem sombria daqueles tempos. Taparam-se sorrisos de malícia; abafaram-se gargalhadas estridentes. O véu que nos cobriu a boca nos impregnou de pudores e erotismos. E o que por muito significou uma mantilha de luto, por pouco não se transformou em mais reles acessório de lingerie. Como se vestíssemos cuecas e calcinhas no meio do rosto, já que ninguém lembrava direito o que se escondia por trás do pano alheio.
Quando finalmente nos despimos daquele adereço inconveniente, já éramos todos a cara da Virgínia e do Gusttavo Lima – embora nem eles lembrassem mais de como eram seus rostos antigamente.
Mas, como disse, é apenas uma teoria.

