A palavra mata a coisa. A ideia vem de Friedrich Hegel, mas a sacada — o golpe de linguagem — é do psicanalista Jacques Lacan, num feito raro: melhorar um pensamento de filósofo em sentença de efeito. Os filósofos foram os precursores das redes sociais: grandes frasistas de poucos caracteres. “Penso, logo existo.” “Só sei que nada sei.” “Deus está morto.” Não fosse o hábito de acrescentar um epílogo de oitocentas páginas ao raciocínio, talvez tivessem restado à história com mais engajamento.
Descartes, Sócrates e Nietzsche perderam a rara chance de terem sido o Felipe Neto, o Nikolas Ferreira e o Choquei de sua geração.
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Lacan quis dizer que, ao nomearmos algo, trocamos a presença pelo símbolo. Um café bem passadinho, fumegando em aroma de carinho e conforto, não precisa estar sobre minha mesa para ser café. A palavra não preserva a coisa — substitui. Serve também para os sentimentos: ao dizer “amor”, não é o amor que aparece, é só o que dele coube na palavra.
No mais, Josiane nunca me aparece com um cafezinho mesmo.
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Mas, se a palavra matou a coisa, o homem vem matando a palavra — e as vítimas mais evidentes desse cruel extermínio semântico são as vogais.
É verdade que, durante um bom tempo, as vogais esbanjaram certa afetação diante de seus vassalos consoantes. Não precisávamos, de fato, do “vossa mercê”. Ajustamos para “vosmecê”, evoluímos com o clássico “você” — até nos conformarmos com o lacônico “vc”.
Tudo bem até aí. Um pronome de cortesia, análogo ao “tu”, ser subtraído ao status de monossílabo poderia ser entendido como reparação gramatical histórica. Por muito menos, o trema foi defenestrado sem pena.
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O problema foi deixarmos o processo avançar sobre as manifestações de gentileza e sentimentos. Quem beija com bj não encosta a boca; quem sente saudades com sds sequer pensa na gente; quem se refere a uma mulher atraente por dlç, de delícia, fere em apenas três letras a reputação da cedilha, as papilas gustativas e o bom senso.
Não estranha que pesquisas apontem que os jovens estejam mais tristes, agressivos e transando menos. Os afetos foram contraídos a códigos de guerra, siglas de aeroportos e doenças venéreas.
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Fosse apenas a esqueletização das vogais escritas uma sequela necessária à pressa do mundo em se comunicar pelos dedos, minha diatribe se limitaria aos meus próprios resmungos privados. Dáblios e ípsilones não são meus moinhos de vento favoritos; ainda pretendo ser pai, torço para o Internacional e tenho uma próstata que demanda atenção permanente.
Ocorre que a mensagem oral também foi abatida pelo conflito entre raciocínios analógicos e a pressa digital. Os vídeos agora disputam pensamentos em falas aceleradas deliberadamente. É um recurso tecnológico, uma ferramenta de aceleração, a pretexto de que a mensagem não fique extensa demais, drenando a dopamina dos fiéis seguidores a níveis de abstinência.
No desespero de passar alguma mensagem pela estreita fresta de tempo na tela, antes de ser sumariamente descartada pelo fluxo frenético das redes, prevalece o inteligível — e a ilusão de que os seguidores sejam tão fiéis assim. O pensamento crítico se perde numa prosódia truncada por soluços, sobressaltos e vozes de desenho animado manipuladas artificialmente, no que convencionamos tolerar como linguagem.
Com isso, a verdade objetiva dá lugar à verdade customizada, uma espécie de cupom de desconto da Shopee que cada um aplica à verdade conveniente que melhor lhe servir.
Basta chamar de narrativa.
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Em 1964, o pensador canadense Marshall McLuhan acertou quando disse que o meio era a mensagem.
Mas McLuhan não era fonoaudiólogo.
Hoje, a mesma espécie humana que se perpetuou graças ao domínio do cérebro sobre o polegar opositor, agoniza sua primeira derrota.
Para o próprio dedão.


