Em meados de 1966, no Rio ainda suspenso entre a bossa e um torpor de ressaca, Paulo Mendes Campos publicou na revista Manchete a crônica que talvez seja nossa mais precisa anatomia da perda. Não há tragédias grandiosas no texto, apenas uma ladainha hipnótica — um inventário de quarenta e quatro gestos, lugares e circunstâncias em que o amor acaba. O mais nobre dos sentimentos surge reduzido ao desgaste miúdo, quase nunca em estrondo: quando a saudade falta, no sorvete que derrete, no hábito do beijo, no cinema, no subúrbio, na luz indecisa da aurora, na fumaça do cigarro. O que importa é concordar que o amor acaba.
Mendes Campos integrava a diáspora de escritores mineiros que nos anos 50 migraram para o Rio e causaram furor na debochada intelligentsia carioca por cultivarem uma escancarada lírica da perda em suas crônicasliterárias. Fernando Sabino se impunha como humorista à beira do abismo; Paulo Mendes Campos era o melancólico obstinado no instante em que tudo se desfaz; Otto Lara Resende trajava moralismos e enfeitava-se de remorsos. Logo se estreitaram em encantos recíprocos com Nelson Rodrigues - que, por gentileza a eles, cunhou a máxima de que o mineiro seria solidário apenas no câncer. Em uma de suas peças mais provocadoras, não poupou o puritanismo cínico de Resende e o incluiu em aposto no título do espetáculo: “Bonitinha, mas Ordinária (ou Otto Lara Resende)”.
Era uma relação que se impunha pelo contraste. Para os mineiros, o amor era ausência que dói. Para o carioca, a presença que agride. Se em Paulo Mendes Campos o sentimento se esvai por desgaste ou tédio, na vida rodriguiana como ele é, ele só se resolve no adultério, no delírio ou na tragédia.
Convergiam no fato de que o amor acaba, mas não disseram por onde ele começa.
Talvez na esquina da minha casa.
*
Ao pé do meu prédio, o pica-pau republicano Senador Pinheiro encerra sua saga em linha reta, atravessa a Vila Rodrigues sobre a memória de asfalto e desemboca em um beco pitoresco, escondido à sombra da cidade vertical. Não deixa de ser um fim de linha sereno para um sujeito de biografia atormentada por celeumas políticas e militares. Poucas quadras acima, ainda cruza em esquina com seu inimigo maragato Prestes Guimarães — numa metáfora de sua última batalha antes de vestir em pijamas pela vinícola de prédios do bairro.
É um beco de pouco movimento, tirante o pássaro tesourinha que persiste sobre o pé de ameixa, à revelia do vento de outono, que já lhe assopra urgência em migrar para o Norte. Ao fundo, resta um banco de madeira, imposto pela gentileza anônima de algum vizinho inconformado em admitir a paisagem pela metade.
Foi neste banco que, à tarde de um dia desses, sentou-se uma bonita moça de procedência ignorada. Logo em seguida aproximou-se um estranho, pelo qual me detive em alerta — talvez por ser um beco com uma mulher em risco aparente, talvez apenas por curiosidade. Era um sujeito de predicados físicos discretos, à exceção de uma autoestima extraordinária. Mexia-se desleixado, em trajes de quem não se vestiu para atrasar seu destino por alguma fatalidade sentimental. Fez uma abordagem serena e educada, embora ela tenha reagido de início com semblante tenso — o que seria bastante razoável. Depois de uma breve coreografia de palavras inaudíveis e gestos meio desengonçados, a moça desfez-se num sorriso de guarda baixa.
Ele sentou-se ao seu lado.
Ela, ereta numa geografia de esqueleto íngreme, ainda mais espichada pelo arranha-céu dos saltos do sapato; ele, envergado sobre os próprios joelhos, admirava-a olhando para o alto, subentendendo-se tanto inofensivo quanto encantado. Aos poucos, ela destravou em falar — ao que ele, atento, aproveitava cada pausa para exaltar-se em gargalhadas. Depois, sacaram os telefones, no que me pareceu uma troca consentida de contatos. Ele levantou-se satisfeito e despediu-se gentilmente. Passou indiferente ao meu lado. Sorria um sorriso introspectivo, sem buscar num estranho a aprovação masculina que muitas vezes começa em euforia e termina em crimes de raiva.
Sem aplicativos afetivos, sem poesias escritas, sem ostentações materiais; apenas no improviso da lábia.
Restei ali alguns instantes, pensativo e otimista, entre o refrão de meu irmão Carlinhos Carneiro e a estrofe de Vinícius de Moraes: Que fosse amor antes que acabe.
O tesourinha cagou no meu braço.


