OPINIÃO

Cantinho do pensamento

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Hemingway chegou a Cojímar movido por uma insistência antiga: testar o homem — e a si mesmo — contra alguma força maior. Apesar da paisagem dócil e da rotina repetida dos barcos leves, aquele recorte caribenho de água mansa não lhe serviu de descanso; era um novo campo de batalha. Entre o sossego etílico e o ambiente idílico, afinou o contraste: o mar, depurado de qualquer romantismo fácil, era resistência. Da fricção entre a superfície tranquila e o esforço contínuo de existir contra ela, emergiu o embate que o consagraria em “O Velho e o Mar”.

Neruda foi pelo oposto, porque lhe era o oposto. Em Isla Negra, o poeta não enfrentou o oceano; acumulou-o. Trouxe para dentro de casa seus fragmentos: conchas, mapas, objetos. Escrever, ali, era sua maneira de domesticar o infinito.

Tipasa foi para Camus o que Argel jamais poderia ser para Meursault, seu protagonista indiferente de “O Estrangeiro”. A ambos, ainda se poderia dizer que a culpa foi do sol — mas com efeitos distintos. A luz que esmagava o personagem até o delírio de uma atrocidade era a mesma claridade que, em Tipasa, reconciliava o autor com o mundo.

João Ubaldo Ribeiro não escolheu: nasceu na Ilha de Itaparica e passou a vida escrevendo a partir dela. O mar não era seu tema; era seu idioma — um idioma que ganharia corpo e nação em “Viva o Povo Brasileiro”.

Passei duas semanas em Barra de Ibiraquera e engordei três quilos.

Ibiraquera no outono se tornou uma tradição de cura surgida do improviso da doença. Fui dar em suas dunas sapecadas de vegetação nativa pela primeira vez às vésperas da pesca da tainha e da visita das baleias, quando já me azucrinavam os primeiros sintomas de uma dependência de hábitos que me pareciam irreversíveis.

Era uma paisagem de antítese brutal aos modos com que eu havia me acostumado a acelerar a vida em elipses de euforia.

À época, não sabia que muitos aportam por lá movidos por outros hematomas de espírito. Buscam na vila os retiros e as palavras do mestre que os locais — e os forasteiros que chegam de todo canto do mundo — chamam respeitosamente de Baba. Muitos vão para amansar, pelo silêncio ou pela meditação, as ansiedades que o mundo cultiva. De início, me mantive distante, cético e cínico. Em pouco tempo, apenas distante o suficiente para não atrapalhar, mas atento o bastante para respeitar seus princípios. É uma busca bonita, que se torna ainda mais sensível quando se tem um guia em quem se confia nos instantes difíceis.

No meu caso, quem me chegou com os primeiros curativos foi Aurora, filha de Adilah.

Aurora tinha três anos e me tratou com arnica.

Ano passado voltei com dois compromissos: comemorar meu aniversário e voltar a escrever sem ruídos medicamentosos no organismo. Foram dias intensamente introspectivos à varanda do chalé — em rinha perdida contra a página em branco e com as retinas afogadas na espuma das ondas que quebravam à distância segura dos náufragos de seus destinos.

Josiane despencou alguns amigos e me arranjou uma festa divertida, com direito a um único bolo e muitos brindes. Na manhã seguinte, impedindo-me a ressaca qualquer movimento brusco além da cama, Aurora se manteve firme ao meu lado. Estava implacável em me repreender pelo desinteresse em me alimentar de modo decente, enquanto devorava descontraída as guloseimas da cesta de café da manhã que me embrulhava o estômago.

Presenteou-me com um cristal de quartzo hialino, que trago na carteira.

É indicado para tratamentos de purificação, clareza mental e foco.

Desde então, fato é que tornei a publicar e receio até mesmo o curandeirismo de um chá de carqueja nos episódios em que a lombar resmunga a fadiga de anos de sedentarismo.

Arnica, quartzo hialino e três anos de psicanálise ressecam qualquer ferida da existência.

Neste ano retornei com a intenção de não escrever – o que cumpri com maestria. Restabelecido do sobrepeso físico e do peso da escrita, expus-me ao sol intermitente e aos caprichos da gula e da preguiça com a mesma urgência com que os afogados se debatem por oxigênio. Foram dias de encerramento de um processo de recomposição sensorial que começaram lá antes, no tempo das primeiras visitas. A princípio, pelos remendos do ânimo, até redundarem no corpo enfim presente diante do espaço e do tempo.

Amigos locais, amigos antigos, familiares e amigos de infância estavam lá quando soprei 48 anos contra a vela em formato de sereia.

E Aurora, depois de tantos contratempos, finalmente pôde me ensinar a dar estrelinha na areia.

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