O ano de 2008 me foi especialmente frustrante. Nos dezoito meses anteriores, havia acumulado três colunas semanais em um caderno de cultura, uma direção de redação em jornal diário, uma direção criativa de duas rádios de perfis radicalmente distintos e o lançamento de uma revista editorialmente exótica, financiada em boa parte pelo que restava de toda aquela baderna profissional na qual eu já não sabia exatamente como tinha me enfiado. Por mais que tentasse justificar o transtorno pela lógica do desafio, aos poucos me foi corroendo uma consciência de pato. O pato é um bicho curioso: anda, nada e voa — e faz tudo mal.
Ainda assim, no primeiro dia daquele ano, apresentei-me para trabalhar como autor-roteirista em um programa de televisão que, depois de alguns anos de muito investimento e poucas repercussões, por fim experimentava as regalias públicas do sucesso nacional.
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Os programas de auditório da televisão brasileira viviam então uma profunda renovação influenciada por formatos de reforma norte-americanos. Em sua versão original, os gringos promoviam transformações espetaculares, mas demonstravam interesse apenas moderado pela trajetória de seus personagens. Se ao público americano bastava a pirotecnia da recompensa — carros, casas e toda sorte de prodígios materiais —, para a audiência brasileira, por razões econômicas e sociais, o espetáculo só adquiria sentido completo pelo sofrimento pregresso de seus contemplados.
Em termos artísticos, essa nova fórmula de assistencialismo roteirizado à brasileira promoveu uma profunda revolução em um gênero que as emissoras sempre trataram como o irmão problemático da dramaturgia pródiga. Enquanto as novelas recebiam o melhor da inteligência e do status criativo disponíveis, os programas de variedades costumavam sobreviver à mingua de atrações musicais, dançarinas atraentes, concursos vulgares e da boa vontade de algum artista em evidência disposto a ser bajulado.
Ao incorporar roteiristas familiarizados com a estrutura narrativa da Jornada do Herói — consagrada pela literatura clássica e pela dramaturgia popular —, os programas de auditório encontraram uma forma de transformar assistência social em enredo e vida real precária em folhetins extraordinários.
Os dramaturgos torciam o nariz.
Público e anunciantes adoravam.
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Nesse contexto, o programa para o qual eu havia sido contratado dispunha de imensas vantagens: grana, equipe, incentivo criativo, estrutura e tempo suficientes para produzir todos os tipos de transformações que se pudesse imaginar.
Eram tantas frentes que a produção mantinha equipes fixas para praticamente todos os formatos: carro, casa, negócios, viagens — além de, eventualmente, uma editoria inteira formada apenas para localizar parentes perdidos ou providenciar dentes novos.
À época, entretanto, meu entendimento sobre esses pormenores ficava um pouco comprometido por dois únicos detalhes: ter assistido no máximo meia dúzia de vezes ao programa e nunca ter pisado antes em um set de gravação.
Depois de tanto andar, nadar e voar atrapalhado, o pato, enfim, rastejava.
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De modo que 2008 transcorreu inteiro cabisbaixo e saltitando entre quadros menores, de qualidade duvidosa e relevância ordinária. Minha maior repercussão geralmente se limitava aos deboches dos amigos que eu cultivara do outro lado da trincheira em que rivalizam entretenimento de massa e afetações intelectuais. Se me fosse permitido exagerar a importância da minha passagem pela história da televisão brasileira, diria ter sido a de sensibilizar tantos nomes da intelligentsia nacional a consumir um programa popular — por mais que fosse pelo viés depreciativo da comédia duvidosa, na qual invariavelmente eu era o personagem mais debochado — sobretudo por Ziraldo e Matheus Nachtergaele.
Quando já considerava seriamente pedir demissão (ou ser demitido), uma ideia providencial devolveu algum ânimo — e mais uma década de permanência não forçada: a criação de um novo quadro que prometia todos os arcos dramáticos desejados, com potencial para mobilizar o interesse de quase todos os extratos sociais. Melhor ainda: dispensava boa parte dos contorcionismos morais com os quais eu vinha me debatendo antes de me render em definitivo à fórmula já consagrada. De certa forma, não me obrigava a transformar a miséria dos protagonistas em espetáculo televisivo em troca de um mínimo conforto, alguns trocados na conta e um punhado de eletrodomésticos.
(Isso eu viria a fazer com menos escrúpulos apenas depois, ao escalar na hierarquia interna da casa.)
Por ora, era um quadro que me permitiria gravar com os maiores ídolos do futebol, realizar o sonho de alguns meninos e ainda participar dos maiores eventos do esporte mundial.
É sobre os bastidores dessas gravações que pretendo escrever durante as próximas semanas de Copa do Mundo.
Aqui mesmo neste espaço.
Já que a Virgínia tomou meu lugar.

