OPINIÃO

O primeiro Morin a gente não esquece

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Edgar Morin, o sociólogo francês que, ao transcender os limites da sua formação acadêmica em Direito, História e Geografia, personificou como poucos a essência do que vem a ser um intelectual, morreu na última sexta-feira (29/05/2026) em Paris, faltando exatos 40 dias para completar 105 anos. Ainda que para Morin o fatídico 29 de maio de 2026 possa ser configurado como o fim da sua caminhada entre nós, para quem fica, não é o final da estrada do conhecimento, “os caminhos”, que ele exemplarmente pavimentou.

Eu cheguei até Edgar Morin por obra e graça das Jornadas Literárias. Foi em 2003, quando que ele esteve em Passo Fundo para, na ocasião, além de ser o principal convidado do evento, também receber o título de “Professor Honoris Causa” pela UPF. Nas ciências agrárias, onde o positivismo de Auguste Comte viceja tal qual seus áureos tempos no século XIX, o nome Morin, diferente do universo da Educação, não era e provavelmente ainda não seja muito conhecido.

Lembro que, num final de tarde de um dia qualquer de 2003, entrei na saudosa livraria Nobel que existia na entrada da galeria do Shopping Bento Brasil. A proprietária do estabelecimento, a Sra. Laura Lunardi, como de costume, se aproximou de mim e perguntou se eu conhecia a obra de Edgar Morin. Eu disse que não, apesar do nome soar familiar. Ela complementou que ele seria o principal convidado da Jornada Nacional de Literatura daquele ano e que seus livros estavam vendendo bem para os professores. Mostrou os títulos expostos e pegou um exemplar da obra “A Religação dos Saberes – O Desafio do Século XXI”, sobre o qual discorreu com a maestria de todo livreiro apaixonado pelo seu ofício. Desnecessário dizer que esse livro foi o primeiro dos muitos Morins que eu adquiriria a partir daquele dia. A obra é o conjunto das contribuições de autores diversos que participaram das jornadas temáticas idealizadas e dirigidas por Edgar Morin, em 1998, com introdução e observações finais assinadas por ele, em cada capítulo, visando a melhorar a Educação na França (aplicável em qualquer país do mundo), a partir da proposta de regeneração de uma cultura humanista laica capaz de afrontar os desafios do século XXI.

Morin foi um escritor prolífico. Além de obras individuais, ele tem muitos títulos em colaboração com autores diversos e compilações de entrevistas que mostram todo o vigor do seu intelecto ao tratar dos mais variados assuntos. Na língua portuguesa, podemos encontrar obras de Morin pela Bertrand Brasil, pela Editora Sulina e pelo Instituto Piaget, publicadas em Portugal. O último livro de Morin, que eu comprei, sendo provável que tenham sido publicados outros depois, foi a compilação de textos pessoais, políticos, sociológicos, filosóficos e literários, intitulada “Só um instante”, que saiu na França em 2023 e no Brasil em 2025. O meu livro preferido é “Inteligência da Complexidade – Epistemologia e Pragmática”, assinado por Edgar Morin e Jean-Louis Le Moigne”, original de 2007, publicado pelo Instituto Piaget em 2009.

Quem quiser conhecer um Morin demasiadamente confessional, que fala em infidelidade conjugal e que não hesita fumar um cigarro de maconha para relaxar, sugiro ler “Edwige, a inseparável”. Neste livro, Morin discorre sobre a sua paixão pela mulher acometida por uma doença terminal. Uma espécie de diário do último ano da vida dela, repleto de rememorações de momentos felizes e outros nem tanto, de um caso de amor vivido em idade avançada.

Quando começou a escrever “O Método”, Edgar Morin, é bem provável, não imaginava que o resultado do seu esforço intelectual o levaria até o método da complexidade. Foi o método (o caminho), como insinuam os versos do poeta espanhol Antonio Machado, Caminante, no hay camino, se hace camino al andar…” (Caminhante, não há caminho, se faz caminho ao andar…), que o fez chegar, progressivamente, ao longo de seis tomos e 30 anos de estudo, à construção da sua obra monumental.

O diferencial de Edgar Morin foi destacar a necessidade de ir além das visões estreitas e limitadas das ciências singulares, uma vez que a realidade transcende as fronteiras das disciplinas e das especializações. A grande questão é como transgredir as fronteiras entre as disciplinas sem, contudo, ultrapassar os limites do entendimento?

A principal contribuição deixada pelos pensadores sistêmicos e adeptos do paradigma da complexidade, a exemplo de Edgar Morin, foi o entendimento de que a ciência, mesmo sendo um domínio onde grassam muitas certezas, não é, de forma alguma, o reino da certeza absoluta.

SUGESTÃO DO COLUNISTA: O livro “El Niño Oscilação Sul – Clima, Vegetação e Agricultura” está disponível para download gratuito: https://www.embrapa.br/en/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1164333/el-nino-oscilacao-sul-clima-vegetacao-e-agricultura


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