OPINIÃO

Conjuntura Internacional

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A diplomacia internacional gosta de assinaturas, fotografias e comunicados, o que os líderes costumam chamar de vitória. O problema é que, muitas vezes, a assinatura encerra apenas uma fase do conflito e inaugura uma nova etapa de incertezas. Foi exatamente essa sensação que emergiu após a divulgação do Memorando de Entendimento firmado entre os EUA e o Irã para encerrar o mais recente confronto entre os dois países. Em teoria, trata-se de um avanço diplomático. Afinal, cessar-fogo sempre parece preferível à continuidade das hostilidades. Na prática, entretanto, o documento suscita uma questão desconfortável: quem cedeu mais?

O que o Irã realmente concedeu?

Considerando os termos conhecidos até aqui, o lado iraniano oferece, essencialmente, duas contrapartidas. A primeira é a reafirmação de que não buscará armas nucleares, compromisso que, de diferentes formas, já aparecia em negociações anteriores e cuja efetividade dependerá de mecanismos futuros de verificação. A segunda consiste na normalização da navegação pelo Estreito de Ormuz, uma das rotas energéticas mais importantes do planeta. Aqui surge uma curiosidade estratégica, uma vez que o estreito estava aberto antes da guerra. Em outras palavras, parte relevante da concessão iraniana consiste em restaurar uma condição que existia antes do conflito. Do lado americano, o cardápio parece mais robusto: desbloqueio de ativos iranianos, flexibilização ou retirada de sanções econômicas, retomada da comercialização de petróleo e a perspectiva de um fundo de investimentos e reconstrução estimado em até US$ 300 bilhões com apoio de parceiros regionais. Ao mesmo tempo, chama a atenção a ausência de limitações claras ao programa de mísseis balísticos iranianos. O tema apareceu repetidamente entre os argumentos utilizados para justificar a pressão militar sobre Teerã. Tudo isso cria uma percepção política delicada em Washington. Para parte da opinião pública americana, especialmente entre contribuintes que financiaram o esforço militar, a pergunta inevitável será simples: qual foi exatamente o retorno estratégico obtido em troca dos custos da guerra?

Cenários

É justamente aqui que o debate se torna mais importante. A história das relações internacionais mostra que guerras terminam em datas específicas e conflitos, raramente. O cenário otimista sugere que o memorando funcione como uma ponte para um acordo mais abrangente, capaz de estabilizar a região e criar incentivos econômicos suficientes para reduzir futuras tensões. O cenário intermediário aponta para uma paz armada, marcada por desconfiança permanente, avanços pontuais e crises recorrentes. Já o cenário pessimista é aquele que mais deveria preocupar os formuladores de política externa: um acordo que interrompe os combates sem alterar os fatores que os produziram. Tenho repetido há algum tempo que um cessar-fogo frágil pode ser pior do que uma guerra inacabada. Guerras inacabadas preservam a percepção de que ainda existe um problema a resolver. O cessar-fogo frágil cria a ilusão de que ele já foi resolvido. Talvez o verdadeiro teste deste memorando não esteja naquilo que ele encerra hoje, mas naquilo que será capaz de impedir amanhã. Porque, em política internacional, a diferença entre paz e pausa costuma aparecer apenas com o passar do tempo.

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