Em meados de 2011, as relações entre Brasil e Estados Unidos experimentavam um verniz de cordialidade pragmática que lembrava uma amizade sincera. O visto de acesso aos pátios estadunidenses transbordava pelos consulados. Em números finais, o ano registraria um salto de 26% no fluxo de turistas brasileiros com alguma pendura norte-americana no cartão de crédito. Descolava-se um dólar fácil pelo escambo de um real e meio.
O bom momento assanhou os corredores menos badalados da diplomacia a ampliar seu já imenso portfólio de soft power.
A ideia partiu da Embaixada Americana: identificar estudantes da rede pública com bom desempenho e histórico de liderança para um intercâmbio de três semanas nos Estados Unidos. Batizado de Jovens Embaixadores, o programa era ambicioso demais para mofar perdido no correio da burocracia diplomática. Faltava-lhe visibilidade. Por sorte, em 2011 havia um lugar especialmente vocacionado para transformar em espetáculo de televisão qualquer boa intenção institucional. Era justamente onde eu trabalhava.
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Ser escalado para aquele quadro era, nos bastidores, sinal de prestígio. Tempo de sobra, orçamento de sobra e — o paraíso dos autores-roteiristas — a ausência do apresentador durante todo o processo.
Em 2011, o inimigo público número 1 dos Estados Unidos era o terrorista Osama bin Laden, caçado havia quase uma década sem sucesso.
Com visto de trabalho em mãos, uma carta-convite da Embaixada Americana e um funcionário da diplomacia a tiracolo, jamais imaginei que, para a imigração norte-americana, o inimigo número 2 talvez pudesse ser eu.
O primeiro sinal de um mal-entendido surgiu logo na chegada, pelo Texas. Fui encaminhado para uma sala isolada e permaneci ali por intermináveis quarenta minutos, sem uma única pergunta. Apenas um policial, com meu passaporte nas mãos, digitava freneticamente no computador o que suponho ter sido uma investigação sobre meus antecedentes criminais, hábitos alimentares, desempenho escolar e escore no Serasa.
Ao final, devolveu-me o documento e apontou para a saída. Por um instante, hesitei, receoso de estar na mira de uma equipe inteira da SWAT.
Mas era apenas o funcionário da Embaixada à minha espera, minimizando o episódio como protocolo de segurança. Afinal, em algumas semanas, teríamos um encontro com a Secretária de Estado, Hillary Clinton.
Assenti com a cabeça, do jeito que suponho que assentiria Karla, o misterioso espião soviético dos romances de John le Carré. Mas alguma coisa me fez suspeitar de que aquele gentil funcionário da Embaixada fosse, na verdade, uma versão um pouco mais afetada de George Smiley.
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A paranoia de ser monitorado escalou em Cleveland, quando fomos gravar com o jogador de basquete Anderson Varejão. Acabei numa festa em sua residência. Na manhã seguinte, ainda às voltas com a ressaca, liguei para um amigo no Brasil, dos tempos em que delirávamos com um futuro de atletas profissionais, para contar-lhe a façanha de ter dormido, bêbado, no banheiro da casa do ídolo da NBA.
O episódio seria mais tarde relembrado pelo agente-funcionário-disfarçado. O detalhe intrigante era que ele não estivera entre os convidados.
O aparelho celular que usei na ligação, entretanto, estivera. E havia sido cedido pela própria Embaixada.
Estaria grampeado?
Pensei em como Karla procederia. Por óbvio, retiraria o chip, quebraria o aparelho e acionaria Moscou para uma manobra de exfiltração.
Depois me ocorreu que não existia celular durante a Guerra Fria.
Como o plano de dados era ilimitado, preferi guardá-lo no bolso e deixar para lá.
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A essa altura, minha presença na gravação com a Hillary Clinton me parecia improvável.
Três dias antes da entrevista, entreguei meu passaporte para um criterioso procedimento de checagem. Embora familiarizado com a literatura de espionagem, havia um motivo concreto para minha resignação: meu passaporte estava retido e eu não era espião.
Com alguma surpresa, fui autorizado. A gravação transcorreu sem qualquer indicativo de que eu representasse uma ameaça.
A única sugestão em sentido contrário partiu, como sempre, do meu agente secreto particular disfarçado de anfitrião. Entre risos, deixou escapar que o estagiário da segurança estava havia três noites sem dormir por minha causa.
No retorno ao Brasil, um último sobressalto: um agente da Polícia Federal demoraria ainda uns trinta minutos para autorizar minha entrada.
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Em maio daquele mesmo ano, voltaria aos Estados Unidos, agora de férias. Embora tentasse deixar para trás os traumas da última experiência, passei boa parte do voo incapaz de relaxar.
O desconforto transformou-se em pânico no trajeto entre o desembarque e o guichê da imigração. Nos monitores do aeroporto, uma tarja anunciava a notícia de última hora: Osama bin Laden havia sido capturado. À medida que chegavam, os passageiros paravam, liam a manchete e explodiam em aplausos.
Os gritos de liberdade contrastavam com meu receio de acabar, injustamente, em Guantánamo.
Na imigração, como previsto, um policial foi acionado para me escoltar. Ao contrário da última experiência, mostrou-se simpático e conversador. Perguntou se eu tinha tempo para desfazer um mal-entendido referente à minha visita anterior. Respondi que demorasse o tempo necessário.
Demorou.
Com o passaporte finalmente em mãos, perguntei qual fora o motivo de tanto atrapalho.
Ao que respondeu, descontraído:
— O sobrenome Castro é muito perigoso, senhor.
Minha réplica não poderia ter sido mais espirituosa:
— Experimenta me dar uma ilha também pra ver do que sou capaz...
Mas ele não riu.
Fiquei mais duas horas sendo interrogado.


