OPINIÃO

Conjuntura Internacional

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Enquanto Kiev sofre novas ondas de mísseis e drones, e Moscou perde território em ritmo lento, mas contínuo, no Donbas, a guerra entra em um momento paradoxal: nunca esteve tão claro que nenhum dos lados vencerá pelas armas, e nunca foi tão difícil se sentar à mesa. Nos últimos dias, ataques russos mataram dezenas de civis em Kharkiv e Kiev, enquanto drones ucranianos atingiram bases aéreas na Crimeia e refinarias no interior da Rússia. É nesse contexto tenso que Kiev decidiu, pela primeira vez desde 2022, autorizar a exportação de armamentos produzidos domesticamente, um sinal de que já não pensa apenas em sobreviver, mas em se firmar como potência militar de médio porte no pós-guerra.

A escassez de interceptadores Patriot

O gargalo mais delicado, porém, não está na linha de frente, mas nas linhas de produção americanas. Zelensky pede a Washington autorização para fabricar sob licença os interceptadores PAC-3 MSE, hoje quase o único recurso capaz de deter mísseis balísticos russos como o Iskander. O consumo ucraniano de até 180 unidades por mês em picos de bombardeio supera em muito a produção nacional dos EUA, ainda mais espremida depois do desgaste de estoques na guerra contra o Irã. Washington sinaliza abertura e há conversas para trazer Ford e GM à produção de mísseis, mas ceder tecnologia sensível a um país em guerra ativa é decisão que toca soberania industrial e segredos de engenharia. A resposta americana, mais do que qualquer ofensiva terrestre, pode definir o teto defensivo de Kiev nos próximos meses.

Três cenários

No cenário provável, a guerra segue em atrito de baixa intensidade territorial e alta intensidade aérea: Rússia avança poucos quilômetros por mês, Ucrânia responde com ataques de precisão a refinarias e bases, e Washington concede apoio parcial ao pedido dos Patriot, com sustentação técnica e módulos de manutenção, sem transferência plena da tecnologia PAC-3. Nenhum cessar-fogo amplo se materializa antes do fim de 2026. No cenário desejável, negociações mediadas por Washington avançam para um congelamento de fato das linhas de frente, acompanhado de garantias de segurança ocidentais reforçadas, entre elas, a autorização plena para a produção ucraniana de interceptadores, reduzindo a dependência crônica de Kiev e dando à Europa um parceiro industrial de defesa. Seria o desfecho mais estabilizador para o continente, embora exija concessões territoriais dolorosas de ambos os lados. No cenário possível, a escassez de interceptadores nos EUA, agravada pelo confronto recente com o Irã, leva Washington a priorizar seus próprios estoques e os de aliados no Golfo e em Taiwan, negando a Kiev a licença de produção. Isso abriria uma janela de vulnerabilidade aérea, justamente quando a Rússia intensifica ataques à infraestrutura energética, pressionando a Ucrânia a negociar em posição de fraqueza.

O que observar?

Os próximos sinais decisivos virão de Washington, não do front: se a Casa Branca autorizar produção ucraniana de PAC-3, o equilíbrio estratégico pende a favor de Kiev no médio prazo; se recusar, a pressão por um acordo negociado, nos termos que a Rússia hoje dita, tende a crescer rapidamente. Entre esses polos se decidirá boa parte do desfecho dessa guerra.

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