OPINIÃO

CUBA: DA UTOPIA REVOLUCIONÁRIA À TRAGÉDIA NACIONAL

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A tragédia cubana

           Os cubanos vivem uma terrível crise – econômica, social, energética e migratória - marcada por inflação alta, escassez de alimentos e medicamentos, colapso energético e uma onda migratória sem precedentes. A inflação galopante corrói salários e aposentadorias, empurrando grande parte da população para a pobreza. A desigualdade cresce entre quem recebe remessas do exterior e quem depende exclusivamente de salários pagos pelo Estado. A falta de medicamentos, insumos e equipamentos compromete a qualidade do sistema de saúde — historicamente um dos pilares do regime. A crise alimentar se agrava, com aumento da desnutrição infantil e insegurança alimentar generalizada. No setor energético, apagões cada vez mais longos e frequentes paralisam a vida cotidiana e a atividade econômica. Diante desse quadro, diversas fontes independentes e analistas internacionais descrevem Cuba como um país à beira do colapso, pressionado por décadas de estagnação, má gestão, isolamento e fuga em massa de sua população.

Fuga recorde

O regime comunista cubano enfrentou, desde o início, uma grave e persistente crise migratória. Estimativas independentes indicam que entre 1,3 e 1,5 milhão de cubanos emigraram desde 1959, configurando uma das maiores diásporas políticas e econômicas da América Latina. Embora não existam dados oficiais consolidados, trata-se de um dos maiores êxodos da região em termos proporcionais. Estima‑se que entre 12% e 14% da população cubana tenha deixado o país desde o início da Revolução — um êxodo de proporções demográficas extraordinárias. Em termos relativos, isso equivaleria à emigração de aproximadamente 27 milhões de brasileiros.

O “muro aquático” que sustentou o regime cubano

           Não é o único fator, mas o fato de Cuba ser uma ilha ajuda a explicar a longevidade do regime comunista. Enquanto a Alemanha Oriental precisou erguer um muro para impedir a fuga de seus cidadãos, em Cuba isso nunca foi necessário: quem desejava “votar com os pés” precisava enfrentar um “muro aquático”, uma travessia extremamente perigosa pelo Estreito da Flórida. A Corrente do Golfo, uma das mais fortes do mundo, torna a viagem em pequenas embarcações quase suicida. Centenas de cubanos morreram afogados, e a maioria dos estudos estima que entre 15.000 e 25.000 pessoas tenham perdido a vida tentando escapar desde 1959. Os números exatos são impossíveis de determinar: muitos desapareceram sem deixar registro, os corpos raramente são recuperados e grande parte das travessias ocorre de forma clandestina.

Leonardo Padura e a utopia que fracassou

           Leonardo Padura, um dos escritores cubanos mais importantes da atualidade e o autor vivo mais lido do país, oferece em sua obra uma visão profunda e humana de Cuba. Vários de seus livros foram publicados no Brasil, sendo “O homem que amava cachorros” o mais premiado e de maior repercussão. Mesmo diante da grave crise energética e econômica que afeta a ilha — marcada por apagões, escassez de combustível e dificuldades cotidianas — Padura continua vivendo em Cuba, realidade que influencia sua escrita e sustenta sua visão crítica sobre o país. Segundo ele, os cubanos estão cansados, desencantados e, muitas vezes, desesperados, especialmente os jovens, que já não aceitam ver suas vidas consumidas por slogans incapazes de resolver problemas vitais ou garantir necessidades básicas. Padura afirma que a crise atual provocará novos e numerosos exílios, pois, após tantos anos alimentando uma utopia que não produziu os resultados esperados, prevalecem o pragmatismo e a busca de soluções individuais diante do fracasso coletivo (O Estado de S. Paulo, 18/11/21).       

Nas mãos de Trump

           A manchete do jornal espanhol El País soa irônica diante do atual cenário cubano. A crise prolongada e o empobrecimento da população deixaram o país fragilizado, sem apoio interno consistente e com pouca solidariedade internacional, tornando‑o ainda mais vulnerável às pressões dos Estados Unidos sob o governo de Donald Trump. Mesmo setores tradicionais da esquerda latino‑americana demonstram desgaste e distanciamento diante do que classificam como o “sedentarismo ideológico de Havana”.

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