OPINIÃO

Quem matou Francisco Real?

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Eram tempos que fama e respeito, entre os homens, e a admiração, pelas mulheres, eram forjados em duelos de adagas. Essa temática, gauchesca por excelência, mas também presente nos arrabaldes de Buenos Aires, no final do século XIX e começo do século XX, foi explorada por Jorge Luis Borges para a construção de textos memoráveis. Três deles (há outros), que estão interligados pela mesma história, serão utilizados para lançar um pouco de luz sobre as diferentes versões da morte de Francisco Real.

Vamos começar com o seminal “Hombres pelearon”, de 1928, publicado em “El idioma de los argentinos” (um dos livros proscritos por Borges das suas obras completas); que vai desembocar no conto “Hombre de la Esquina Rosada”, publicado no livro “Historia Universal de La Infamia”, de 1935, que, efetivamente, trata da noite que mataram Francisco Real; e culminar com o confessional e esclarecedor “Historia de Rosendo Juárez”, publicado em “El Informe de Brodie”, de 1970.

Quem ler, de forma apressada ou sem maior atenção, o conto “Hombre de la Esquina Rosada”, talvez não consiga perceber que a pista para o desfecho da história foi dada por Borges no primeiro parágrafo, na fala do narrador, que ao se referir ao finado Francisco Real diz que “arriba de tres veces no lo traté”, e essas em uma mesma noite, antes de passar a relatar a inolvidável noite da morte de Francisco Real. E, quem sabe, nem interpretar o inesperado e enigmático final borgeano.

Foi numa raríssima noite, no salão da Julia, um galpão de folhas de zinco, às margens do Arroio Maldonado, uma espécie de bailanta, no arrabalde de Buenos Aires, Villa Santa Rita, onde música, trago e chinaredo (para ficar no vocabulário gauchesco) davam o tom do ambiente, que se cruzaram os destinos do narrador da história, não nominado por Borges, a Lujanera, cuja beleza sobrava de longe a todas as outras chinas, Rosendo Juárez, do Sul, e Francisco Real, do Norte. Francisco e Rosendo eram dois guapos do mesmo naipe, cujas famas transcendiam os limites dos bairros onde viviam e levavam nas costas algumas mortes.

Francisco Real, cognominado El Corralero, acompanhado de parceiros do Norte, naquela noite, foi ao salão da Julia, em Villa Santa Rita, no Sul, território de Rosendo, com a intenção clara de pelear com Rosendo Juárez e acabar de vez com a dúvida de qual dos dois era o mais bravo. Os dois se encontraram, tomaram alguns tragos juntos, até que Francisco Real passou a desafiar Rosendo Juárez, que se mostrava impassível, para pelear. Francisco chamou Rosendo de covarde. A Lujanera se aproximou e entregou um punhal a Rosendo, mas Rosendo pegou a arma e jogou, por uma janela, nas águas do Maldonado. A Lujanera, a quem não apraz os covardes e por preferir os valentes, até então a mulher de Rosendo, saiu acompanhada por Francisco Real, enquanto Rosendo Juárez deixou o salão da Julia, andando, na noite escura, pela margem oposta do Maldonado, e desapareceu de vez da cena do conto.

Instantes depois, a Lujanera retornou aos prantos ao salão da Julia. Em seguida adentrou o Corralero, Francisco Real. Parecia bêbado. Diz: - um morto, amigo. E cai ferido de morte. Mas, não sem antes pedir que lhe cubram o rosto, para que não vejam a sua cara diante da morte. A Lujanera explicou que estavam num descampado, quando um desconhecido chamou desesperadamente o Corralero a pelear e lhe feriu de morte. Ela jura que não sabe quem é. Seria Rosendo Juárez que os seguiu e matou Francisco Real? A própria Lujanera? Pouco provável, interfere o narrador. Com a aproximação da polícia, o corpo de Franciso Real foi jogado nas águas do Maldonado, enquanto o cego do violino atacava numa vanera.

O dia começava a clarear quando o inominado narrador se deslocou ao seu rancho que ficava a umas três quadras do local. Uma luzinha, que se apagou logo em seguida, ardia na janela; dando uma pista que a Lujanera estava a sua esperava. E, em tom quase confessional, complementou: “Entoces, Borges, volví a sacar el cuchillo corto e filoso que yo sabía cargar aquí, en el chaleco, junto al sobaco izquierdo, y le pegué otra revisada despacio, y estaba como nuevo, inocente, y no quedaba ni un rastrito de sangre”.

Então, quem matou Francisco Real? Elementar, meu caro leitor!

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