OPINIÃO

El Niño 1877 X El Niño 2026

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El Niño 1877 X El Niño 2026

A história registra que, no último quartil do século XIX, marcando o final da Era Vitoriana (1837-1901), quando a economia mundial era comandada pelo padrão ouro (não pelo dólar) e o centro do mundo ficava em Londres (não em Washinton D.C.), houve três ondas de secas severas que deixaram um rastro de destruição e mortes na faixa tropical do Planeta. Imagens de pessoas esquálidas, morrendo aos milhares, vitimadas pela fome, especialmente nas possessões inglesas na Índia, na África e na China, pela similaridade em atrocidade e guardadas as devidas diferenças de motivação, chegaram a merecer a denominação de “holocaustos” vitorianos.

Houve quem, muitos anos depois, identificasse as digitais de El Niño nessas catástrofes climáticas. Mas, afinal, foi El Niño ou o modelo econômico impetrado pelos britânicos o responsável pela tragédia humana associada com as secas vitorianas nos trópicos que, segundo alguns historiadores, teria sido a gênese do que se convencionou, mais tarde, chamar de “Terceiro Mundo”?

Bastou o anúncio de que o El Niño, ora estabelecido, viesse a público e que poderia ser um evento de intensidade forte ou até muito forte, para surgir, nas redes sociais, não se sabe de onde, a comparação incomparável do El Niño de 2026 com o El Niño de 1877. Outros tempos, outro mundo. A previsão do El Niño atual está assentada em uma base robusta de conhecimento científico, enquanto o diagnóstico (não previsão) do El Niño de 1877 foi feito, retroativamente, por reconstrução indireta, carregando incertezas e margem de erro elevadas, uma vez que não havia, na ocasião, o monitoramento de temperaturas das águas superficiais e subsuperficiais do Oceano Pacífico, na faixa equatorial. Esse monitoramento seria implementado a partir do El Niño de 1982/83, com o advento do Programa TOGA (1º de janeiro 1985 a 31 dezembro 1994).

As secas que se instauraram no mundo entre 1876 e 1879 e 1896 e 1902, admite-se, sob os auspícios de El Niño, deixaram, por baixo, 30 milhões de mortos pela fome que se instaurou na população pobre em decorrência de perdas na agricultura. Isso contabilizando-se as vítimas apenas na Índia, na China e no Brasil. As estatísticas, evidentemente carregadas de incerteza, para esses três países, variam entre 31,7 e 61,3 milhões de mortes, havendo quem não considera desarrazoado admitir que 50 milhões de vítimas foram deixadas por três ondas de fome e doenças que assolaram o mundo nos estertores da Era Vitoriana. As digitais nessas mortes seriam de El Niño ou melhor ser creditadas aos súditos da Rainha Vitória e sua insensibilidade para com os atingidos pelas catástrofes climáticas ao levarem ao extremo do sagrado o liberalismo econômico de Adam Smith, o utilitarismo das leis de Jeremy Bentham e os princípios de liberdade e moral professados por John Stuart Mill?

Outro ponto de dificuldade extrema e repleto de controvérsias, para sustentar qualquer comparação minimamente razoável entre o El Niño de 1877 e o El Niño de 2026, é a chamada atribuição de impactos a eventos climáticos extremos. Quase sempre, contabilizados em impactos humanos, via mortalidade e morbidade; econômicos, pelos custos diretos e indiretos dos danos causados e coberturas de indenização pagas por seguradoras; e ambientais, que; não raro, são mascarados pelo grau de exposição e vulnerabilidade. A vulnerabilidade e exposição dos indianos, chineses e da população nordestina, no caso do Brasil, diante de uma seca severa associada com o El Niño de 2026, seria a mesma de 1877? O sistema mundial de alimentação, pelo lado da oferta de alimentos no mundo hoje, não guarda a mínima relação com o que vigia em 1877, para que alguém considere plausível a morte de 50 milhões de pessoas por inanição.

Em comum com a Índia, no final do século XIX, especialmente na Região Nordeste do Brasil, os investimentos ingleses imperavam. A região seria uma espécie de “colônia inglesa informal”. Nesse ambiente, região sensível a El Nino, assim como, pela falha das monções, na Índia, a seca também grassou no Nordeste, espalhando pobreza e mortes. A pregação de Antônio Conselheiro atraiu para as suas hostes muitos retirantes marcados pela fome e pobreza extrema causadas pelas secas que, atualmente, podem, sim, ser associadas com El Niño. No entanto, as digitais de El Niño, no caso brasileiro, não são encontráveis no cadáver de Antônio Conselheiro, que, dizem, não sem controvérsias, morreu de causas naturais; mas na pena de Euclides da Cunha nas páginas de Os Sertões, ao retratar a Guerra de Canudos, 1896-1897.

Em vez de dar ouvidos a comparações incomparáveis, tipo essa El Niño 1877 X El Niño 2026, ou dar voz a negacionistas de plantão, sugerimos o acompanhamento das previsões oficiais do fenômeno ENOS (El Niño – Oscilação Sul) e a montagem de estratégias para que não sejamos surpreendidos quando El Niño (e suas anomalias climáticas associadas) dar o ar da sua graça.

SUGESTÃO DO COLUNISTA: O livro “El Niño Oscilação Sul – Clima, Vegetação e Agricultura” está disponível para download gratuito: https://www.embrapa.br/en/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1164333/el-nino-oscilacao-sul-clima-vegetacao-e-agricultura

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