Este articulista é demandado, em várias ocasiões, para falar sobre o paradoxo da defesa no Brasil. A pergunta mais direta que surge é: se houvesse uma intervenção militar estrangeira no país, quem nos defenderia? A pergunta é justa e gostaria de trazer algumas reflexões estratégicas sobre esse tema. Ainda me lembro quando pesquisava sobre o Barão do Rio Branco (1845-1912), o patrono da diplomacia brasileira. Ele costuma dizer que o Brasil, pela sua dimensão continental e projeção significativa na América Latina, deveria possuir uma defesa condizente com as suas proporções. Hoje o Brasil passa por um déficit na defesa, que gera um paradoxo sensível: maior parte do nosso orçamento de defesa, cerca de 74% (três vezes mais que os EUA) é destinado para a folha de pagamento, ou seja, ativos, inativos e despesas previdenciárias, sendo um caso único no mundo, enquanto o resto do orçamento é destinado à infraestrutura necessária, ou seja: preparo, manutenção, armamento, munição, modernização e capacidade operacional. Dos R$ 118,66 bilhões executados do orçamento (2025), a defesa nacional propriamente dita, recebeu R$ 11,5 bilhões. Assim, o orçamento militar não equivale automaticamente a poder militar.
Mundo
Em 2025, em âmbito global, foram gastos US$ 2,887 trilhões. O gasto médio militar foi na ordem de 2,5% do PIB. O Brasil permanece na faixa de 1%. A questão que surge é grave: mesmo que o Brasil dobrasse o orçamento, com grande parcela comprometida com pessoal, o ganho militar seria proporcionalmente menor. O próprio Ministro da Defesa, José Múcio, chegou a declarar que em uma hipotética invasão militar (no caso, dos EUA), teríamos a “porteira aberta”. Tudo isso em um cenário de realinhamento da política externa americana para o Hemisfério Ocidental. O Brasil formulou durante décadas a sua concepção estratégica de uma América do Sul pacificada. Aliados dos EUA, como Chile e Argentina, já conduzem exercícios militares em conjunto, próximos do espaço estratégico brasileiro. Mas devo dizer que isso evidentemente não significa que exista preparação americana para atacar o Brasil. O que mudou é o conjunto de possibilidades estratégicas. Há alguns anos, uma presença militar mais assertiva na América do Sul parecia uma hipótese extremamente remota.
Capacidade brasileira de resposta
Perante todas as ameaças hipotéticas possíveis, o Brasil teria capacidade relativa de resistência, mas capacidade totalmente limitada de sustentar um confronto convencional de alta intensidade com alguma grande potência. Fora dos confrontos convencionais, bastaria que uma potência naval bloqueasse as exportações marítimas, que representam 90% do total. Com uma manobra militar/econômica e sem a presença marítima brasileira (submarinos nucleares, mísseis antinavio, munições etc.) o estrangulamento seria rápido. A dissuasão moderna depende menos de tornar impossível ocupar o território e mais de tornar proibitivo atacar o país em primeiro lugar. Uma potência continental que destina grande parte de seu orçamento militar com pessoal, pode possuir grandes Forças Armadas (administrativamente) e, simultaneamente, capacidade limitada de guerra de alta intensidade. Afinal, o orçamento brasileiro está financiando a estratégia de defesa do país ou financiando predominantemente a própria estrutura militar?

