OPINIÃO

Conjuntura Internacional

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As recentes decisões argentinas em torno das Malvinas merecem uma leitura mais ampla do que a usual controvérsia sobre a soberania. Vejo uma mudança em curso no Atlântico Sul, e Buenos Aires percebeu que o momento oferece uma oportunidade para recolocar a questão numa agenda em que energia, projeção marítima, Antártida e interesses das grandes potências convergem. O governo de Javier Milei ampliou sanções e medidas judiciais contra empresas ligadas à exploração de hidrocarbonetos no entorno das ilhas. O projeto Sea Lion, com reservas estimadas em 1,7 bilhão de barris, acrescenta urgência econômica a uma disputa concentrada, por muito tempo, no campo diplomático. 

Ingrediente americano

A novidade mais relevante veio de Washington. Donald Trump declarou que os EUA estão revendo sua posição sobre as Malvinas. A política americana segue formalmente a mesma, enquanto a declaração de Trump introduz uma variável geopolítica com efeitos imediatos. Para a Argentina, abre-se uma janela que Milei procura explorar. Washington ganha um instrumento de pressão sobre Londres em um contexto marcado também pela presença chinesa no continente. Essa sobreposição de interesses recoloca as ilhas em outro patamar estratégico.

Argentina se projeta. E o Brasil?

Quando volto o olhar para o Brasil, a movimentação argentina me parece ainda mais desconfortável. A Argentina utiliza instrumentos diplomáticos, jurídicos, econômicos e militares para aumentar sua influência no extremo sul. Brasília acompanha uma transformação que alcança diretamente seus interesses. O Brasil possui a maior costa  atlântica da América do Sul, recursos offshore valiosos, interesses permanentes na Antártida, capacidades navais e uma posição geográfica importante. Vejo esses ativos ainda pouco articulados em uma estratégia de projeção para o Atlântico Sul. Concordar ou divergir da reivindicação argentina ocupa um plano secundário nesta análise. Uma recalibragem das relações entre EUA, Argentina e Reino Unido afeta o ambiente estratégico regional e exige atenção brasileira. Em política internacional, aprendi a observar o movimento dos atores e o espaço deixado por quem decide esperar. Ambos produzem consequências.

Cenários

No cenário provável, vejo Buenos Aires ampliando a pressão econômica, jurídica e diplomática, enquanto Londres mantém sua posição e a exploração petrolífera avança. Washington tende a preservar uma ambiguidade que lhe permite pressionar e conservar margem de manobra. No cenário possível, considero uma aproximação dos EUA à posição argentina e a incorporação das Malvinas a uma negociação mais ampla com o Reino Unido e à disputa por influência no hemisfério. Esse movimento aumentaria o peso estratégico de Buenos Aires no Atlântico Sul. Para o cenário desejável, volto ao Brasil. Defendo a recuperação da iniciativa e a transformação de ativos dispersos em estratégia. Defesa, diplomacia, energia, Antártida e cooperação regional precisam integrar uma visão de longo prazo. A Argentina pensa localmente e produz efeitos regionais. O Brasil tem dimensão para pensar regionalmente e produzir efeitos globais. As Malvinas continuam no mesmo lugar. O tabuleiro ao redor delas mudou. E deixo uma pergunta para Brasília: enquanto as peças se movem, qual será o custo de permanecer onde estamos?

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