Quando o Centro dos Estudantes dos Cursos Agro-Técnicos, o CECAT, da Escola Técnica de Agricultura, a ETA, de Viamão, RS, fez 100 anos, em 28 de setembro de 2016, Edegar da Silva, técnico agrícola e jornalista, escreveu o livro “Centenário do CECAT”. A obra, que foi lançada com o apoio da Associação dos Ex-Alunos da Escola Técnica de Agricultura, a ETA, conta a história desse centro estudantil, que virou referência no universo das escolas agrícolas.
Edegar da Silva reprisou, detalhadamente e com farta documentação fotográfica, a trajetória de um século da agremiação. No que tange às origens do CECAT, usou como fonte o livro magistral do professor Mozart Pereira Soares, publicado em 1997 (ETA: Escola Técnica de Agricultura João Simplício Alves de Carvalho. Porto Alegre: AGE, 1997, 218 p.), que foi a mesma que utilizamos na nossa coluna anterior, para, daquela feita, retratar os 110 anos do CECAT (AQUI) .
O livro de Edegar da Silva revestiu-se de originalidade e assumiu papel de fonte primária, a partir da documentação do processo de reconstrução da sede do centro estudantil, que foi entregue remodelada em 25 de setembro de 2016 (no marco das comemorações dos 100 anos da agremiação, mas que levaria, ainda, uma década para ter as suas instalações novamente frequentadas pelos estudantes) e, especialmente, pelo relato feito do episódio de intervenção no CECAT, ocorrido em abril de 1971.
Eram tempos difíceis os anos 1970. Ocupava a direção da escola o professor José Wilson Pacheco de Souza, o Tio Virso; como era chamado, discretamente e, até, digamos, de forma carinhosa, pelos alunos. A partir de um embate, que começou no ano anterior, entre os alunos, que se diziam injustamente acusados de “mordomias” pelo Tio Virso, por receberem bolsas de estudo pagas pelo Governo do Estado, deu-se o imbróglio. A direção do CECAT cobrou esclarecimentos. A direção da ETA foi insensível ao apelo. Chegou o final do ano e uma Nota Oficial de Esclarecimento, assinada pelo presidente do CECAT, Belo Faustino dos Santos, e pelo secretário-geral, Sérgio Santini, foi publicada na prestimosa coluna Hilário Honório, de responsabilidade do jornalista Adail Borges Fortes da Silva, no jornal Folha da Tarde, da Cia. Jornalística Caldas Júnior, de Porto Alegre. Paralelamente, os estudantes decidiram que não efetivariam matrícula, sem a retratação da direção da ETA. E assim se deu. Em 1971, na volta das férias, todos os alunos, com exceção de um, se postaram na frente da Secretaria da Escola. O diretor ameaçou os estudantes com a Lei de Segurança Nacional. O temido DOPS foi chamado. O presidente e o secretário-geral do CECAT fugiram e foram se abrigar na sede da UGES – União Gaúcha dos Estudantes Secundários, em Porto Alegre. Três meses depois foram eleitos presidente e diretor da UGES.
O episódio não acabou bem para diretoria do CECAT, pois, além da expulsão da escola do presidente, Belo Faustino dos Santos, e do secretário-geral, Sérgio Santini, toda a equipe foi deposta e empossada uma diretoria tampão, indicada pela direção da ETA, em abril de 1971. Edegar da Silva, o autor do livro, na ocasião era o diretor do Departamento de Imprensa e Publicidade do CECAT. Foi ele que levou o manifesto dos estudantes até Porto Alegre e entregou ao jornalista Adail Borges Fortes da Silva, que publicou na influente coluna política que assinava sob o pseudônimo Hilário Honório, na Folha da Tarde. Impedido de participar de qualquer atividade política estudantil, Edegar da Silva foi eleito presidente da Cooperativa Mista dos Estudantes da ETA. Mas, esse caso, também não terminaria bem para a direção da ETA. As repercussões do ocorrido, a partir da Folha da Tarde, o exagero do enquadramento do episódio como ato subversivo, atestando bem o clima vivido no Brasil dos anos 1970, após novas averiguações, levaram à substituição do diretor José Wilson Pacheco de Souza, o inolvidável Tio Virso.
Impossível para quem passou pelos campos do Passo o Vigário, nos anos 1960 e 1970, esquecer as emblemáticas falas do Tio Virso. Algumas verdadeiras e outras, provavelmente, não. Tipo: “mio na terra é dinheiro no borso”, querendo dizer que “milho na terra é dinheiro no bolso”. Ou o uso do “furmino” e sua variante “furminado”, empregados numa clara alusão ao ato de fulminar, significando destruir, arrasar ou reduzir a nada quase instantaneamente, na decantada passagem “deu um ataque de formiga, veio a seca e o mio foi todo furminado”.
Edegar da Silva, ao escrever o livro “Centenário do CECAT”, fez cumprir a máxima “liberdade e responsabilidade”; usada pelo professor Mozart Pereira Soares, em 1997, para sintetizar a origem, a evolução e a finalidade do Centro dos Estudantes dos Cursos Agro-Técnicos, o CECAT, da Escola Técnica de Agricultura, a ETA.
(Atualização de coluna originalmente publica em 30 de junho de 2017.)
SUGESTÃO DO COLUNISTA: O livro “El Niño Oscilação Sul – Clima, Vegetação e Agricultura” está disponível para download gratuito: https://www.embrapa.br/en/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1164333/el-nino-oscilacao-sul-clima-vegetacao-e-agricultura

