A reeleição de Lula para um quarto mandato impõe uma questão inevitável: teremos uma nova política externa brasileira? Considerando o seu histórico e a orientação diplomática dos últimos anos, a minha expectativa é, francamente, pessimista. Tudo indica que teremos mais quatro anos de uma política externa na qual os interesses ideológicos continuarão a prevalecer sobre os Interesses Nacionais. Enquanto o mundo reorganiza alianças, redefine prioridades estratégicas e enfrenta uma nova realidade geopolítica, o Brasil parece condenado a insistir em uma visão de mundo ultrapassada, incapaz de compreender as transformações em curso.
Washington e o custo do isolamento
A relação com os EUA tende a oferecer o primeiro teste dessa orientação. A chegada de Flávio Bolsonaro ao território americano, após a derrota eleitoral e a ordem judicial de entrega de seus passaportes, possui um simbolismo que Brasília faria bem em compreender. O governo Trump anunciou disposição para recebê-lo, e há relatos de participação de integrantes de Washington na articulação de sua saída. O episódio revela o grau de desconfiança que poderá marcar o relacionamento bilateral. Considero plausível uma nova rodada de sanções e uma escalada diplomática capaz de levar a relação a um de seus momentos mais tensos. Transformar Washington em adversário recorrente é um luxo que a economia brasileira dificilmente poderá sustentar. A ausência brasileira no Escudo das Américas reforça essa perda de espaço. Enquanto outros governos organizam mecanismos de cooperação regional em segurança e combate ao crime transnacional, o Brasil permanece fora de uma mesa relevante para o futuro estratégico do continente. A geografia nos impõe responsabilidades regionais, e a dimensão de nossa economia exige pragmatismo. A pretensão de liderança regional perde credibilidade quando sequer participamos de iniciativas que afetam as nossas fronteiras.
Defesa sem prioridade
Imagino que os próximos quatro anos reservem muitas viagens presidenciais, cúpulas e discursos internacionais. Haverá comitivas dispendiosas e proclamações sobre a grandeza do Brasil. Resta saber quantos acordos efetivos, mercados conquistados e ganhos estratégicos reais sobreviverão ao retorno dos aviões oficiais. A diplomacia de Lula parece mais empenhada em preservar a imagem internacional do próprio Presidente do que em ampliar a capacidade de influência do Estado brasileiro. O contraste torna-se ainda mais grave na Defesa. A maior parcela do orçamento militar continua comprometida com pessoal, inativos e pensionistas, enquanto modernização, tecnologia e prontidão disputam recursos insuficientes. Discursar sobre soberania sem enfrentar essa distorção é tratá-la como ornamento de palanque. Soberania exige capacidade material, planejamento e escolhas orçamentárias coerentes. A expectativa é que o quarto mandato repita as antigas prioridades com custos crescentes. Lula poderá percorrer o mundo em busca de aplausos, mas dificilmente encontrará neles a relevância estratégica que o Brasil precisa recuperar. Se essa trajetória persistir, a política externa acabará por assinar o decreto final de um governo desgastado, incapaz de colocar os verdadeiros Interesses Nacionais no centro de sua atuação internacional.

