O hábito de praticar listas é uma inclinação da espécie que remonta à primeira dezena de mandamentos propostos por Deus ao atlético e prestativo Moisés, no cume do Monte Sinai. À revelia do profeta, surgia também a tradição do montanhismo espiritual, que hoje movimenta um importante mercado de endorfina masculina entre promissoras lideranças de valores heteronormativos, regatas de tactel e bíceps tatuados de Carpe Diem.
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Um monge grego chamado Evágrio Pôntico rabiscou o primeiro esboço do que viriam a ser os pecados capitais. Em seu inventário, elencou oito pensamentos malignos. O papa Gregório Magno achou oito um número demasiado e talhou em sete a lista de culpas. A tristeza restou de fora. São Tomás de Aquino deu ao inventário um trato de teologia cosmética: os pecados capitais deixaram de ser erros isolados e passaram a constituir as grandes matrizes dos demais deslizes cotidianos. Por fim, o poeta Dante Alighieri debruçou-se sobre aqueles oito pensamentos malignos, depois reduzidos a sete pecados capitais, e os transformou numa obra extraordinária de três cânticos, 100 cantos e 14.233 versos hendecassílabos, sob o sugestivo título de A Divina Comédia.
Porque é impossível ir do Inferno ao Paraíso com escala no Purgatório sem soar cômico e prolixo.
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Dentre os sete pecados capitais, é justo relativizar alguma escala de gravidades.
Gula, avareza, preguiça, luxúria e ganância são concessões de caráter que melhor se toleram, raramente se condenam e geralmente se celebram. São pecados admitidos sob a ressalva do uso moderado, desde que consumidos socialmente.
Há também uma espécie de antítese que impede o sujeito de incorrer em todos eles ao mesmo tempo: a luxúria inviabiliza a avareza e a preguiça elimina a ganância.
A gula sequer aparenta o status de desvio hediondo que lhe imputam. É um pecado nanico, o Plutão dos descaminhos.
Já a inveja e a ira são os mais execráveis.
São os coringas que sujam de vez a canastra dos pensamentos malignos.
A ira é o pecado que pior disfarçamos no comportamento. É geralmente a cólera que redunda em chilique. Chiliques costumam ser passageiros. O melhor unguento ao quebranto da fúria costuma ser a consciência; a ressaca do bom senso aos exageros da diatribe.
O Efeito Dunning-Kruger é um viés cognitivo identificado em 1999, segundo o qual pessoas com pouco conhecimento em determinada área tendem a superestimar a própria capacidade e convicção. Aumenta-se, assim, o risco de se tornar arbitrário, violento e vingativo. A Darwin se atribui a observação de que a ignorância gera mais confiança que o conhecimento. Sócrates só sabia que nada sabia. Não se tem registro de que tenham saído no braço para defender suas dúvidas, incertezas e idiossincrasias.
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Quando evitamos Sócrates e desdenhamos Darwin deliberadamente, entretanto, nos sujeitamos ao ódio irreversível.
Perde-se a fé; resta o proselitismo.
Impressiona-me a quantidade de contatos imediatos que Deus tem promovido ultimamente em minhas redes sociais. É uma ofensiva de arrebatamentos divinos, cívicos e morais, que me deixa um tanto desconfiado de que algum estelionatário tenha clonado a cartilha de desígnios do Senhor.
As animadas férias em Sodoma foram de súbito trocadas por messiânicos retiros em Cafarnaum.
Moisés deve estar pistola por ter arrastado pedras morro acima até espatifar as rótulas dos joelhos.
A tábua do oitavo mandamento da lista, que proíbe levantar falso testemunho, foi arrastada em vão.

