A liturgia da Solenidade de Todos os Santos, celebrada em 1º de novembro, traz como antífona de abertura: “Alegremo-nos todos no Senhor, celebrando este dia festivo em honra de todos os santos. Nesta solenidade, os Anjos se alegram e conosco dão glória ao Filho de Deus”. Este estribilho de alegria e júbilo está presente nos textos bíblicos e nas orações da solenidade (Apocalipse 7,2-4.9-14; Salmo 23[24]; 1 João 3,1-3 e Mateus 5,1-12). Celebramos os santos canonizados, isto é, os reconhecidos oficialmente pela Igreja, mas também a “multidão imensa de gente de todas as nações, tribos, povos e línguas, e que ninguém podia contar. Estavam de pé diante do trono e do Cordeiro; trajavam vestes brancas e traziam palmas na mão”. Portanto, são celebrados todos os que buscaram sinceramente viver orientados para Deus e para o próximo.
O tema da santidade, na Bíblia, é fundamental e exigente. Fundamental porque se refere à santidade de Deus. É desafiador porque convida o homem à santidade, não simplesmente como uma experiência de fé, mas como componente constitutivo do ser cristão. Na Bíblia encontramos muitas definições de Deus, por exemplo: “Deus misericordioso e clemente”, “o Altíssimo”, mas a qualificação que mais se adequa a Deus é aquela da santidade, porque para ela convergem todas as outras. “O Santo” é um nome que define Deus pelo que é e o crente pelo que é chamado a ser.
Para falar de santidade é preciso partir da afirmação bíblica: Deus é santo; ou melhor, só Deus é santo. A santidade define antes de tudo o ser e o agir de Deus; é o que caracteriza a própria essência da divindade. Quando o profeta Isaías se encontra diante de Deus, os Serafins proclamam: “Santo, Santo, Santo é o Senhor dos exércitos, a terra toda está cheia de sua glória” (6,3). No livro do Apocalipse, as criaturas celestes, “dia e noite, sem cessar, proclamavam: Santo! Santo! Santo! Senhor Deus Todo-Poderoso, aquele que era, que é e que vem!” (4,8). Jesus, quando reza pelos discípulos, exclama: “Pai Santo” (Jo 17,11). Muito cedo a aclamação da santidade de Deus foi incluída na liturgia eucarística.
A Bíblia revela que a santidade de Deus não é distante nem o afasta das criaturas. A santidade de Deus significa pertença e proximidade. Ele escolheu um povo para aproximar-se e lhe pertencer. O Deus santo se fez próximo para tornar-se ele mesmo homem, em Cristo Jesus. Permite aos homens aproximar-se e os convida a serem santos.
Mas como é que podemos tornar-nos santos, amigos de Deus? Para ser santo não é necessário realizar ações ou obras extraordinárias, nem possuir carismas excepcionais. Mas é preciso, sobretudo, ouvir Jesus e depois segui-lo. A história dos santos mostra diversos caminhos percorridos, mas todos passam pelo caminho da cruz, como diz o Apocalipse: “Esses são os que vieram da grande tribulação. Lavaram e alvejaram as suas roupas no sangue do Cordeiro”.
O caminho da santidade é exigente e conduz à felicidade. Jesus ensina que são bem-aventurados os pobres em espírito, os aflitos, os mansos, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os que promovem a paz, os perseguidos por causa da justiça, os injuriados. Este foi o caminho percorrido por Jesus; por isso, ele é o bem-aventurado por excelência. A proposta deste caminho se estende a todos os discípulos de Jesus. Só pode ser trilhado se o Espírito Santo permear toda a vida do fiel com toda a sua força e o libertar da fraqueza do egoísmo e do orgulho.
A santidade humana nasce da santidade de Deus. Ele deu as condições para tal. “Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: de sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos! [...] Sabemos que, quando Jesus se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é. Todo o que espera nele purifica-se a si mesmo, como também ele é puro”.
Rogamos aos santos e santas de Deus que seu exemplo e auxílio venham em socorro da nossa fragilidade.

