A farra dos golpes em Passo Fundo

Só na modalidade golpe do bilhete, 2ª DP tem 1,5 mil autores catalogados; extorsões por troca de fotos íntimas também foram registrados

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Há dez anos como delegado da 2ª Delegacia de Polícia (2ª DP) de Passo Fundo, Cláudio Edgar Trindade Belcamino já recebeu em sua mesa diversos registros de golpes aplicados “do canteiro para cá” da Avenida Brasil. Dentro dos limites da guarnição da 2ª DP, localizada na Cohab 1, estelionatos e extorsões de várias modalidades ocupam os investigadores que, em 30 anos, uniram um catálogo de 1,5 mil nomes de possíveis autores apenas para o chamado “golpe do bilhete”. “Um golpe que nasceu aqui”, ousa Belcamino.

 

Só nos três primeiros meses deste ano, o delegado apresenta uma lista detalhada por mês dos casos registrados na 1ª e 2ª DP. Foram 35 casos de estelionato, tipificação em que são enquadrados os golpes.
Quanto ao tipo, Belcamino detalha quatro, e estima que, dos 35, 30 devem ter sido dentro de alguma modalidade de golpe. Número que, de acordo com o delegado, pode ser maior, já que ainda há resistência de vítimas em registrar o Boletim de Ocorrência por “vergonha de ter caído em um golpe”.

 

Terceira geração do Golpe do bilhete
“E estamos na terceira geração do golpe do bilhete”, diz Belcamino. No final de março, a Polícia Civil prendeu cinco pessoas ligadas a uma quadrilha aplicadora do golpe do bilhete premiado e apreendeu valores em dinheiro e armas durante a Operação Stellio, deflagrada em todo o estado na manhã da sexta-feira, dia 29 de março. Foram 24 mandados de busca e 7 mandados de prisão preventiva cumpridos nas cidades de Passo Fundo, Pelotas, Canguçu, Caxias do Sul, Gravataí, Alvorada, Soledade e Guarapuava/PR.  


A ação foi coordenada pela 1ª Delegacia de Polícia de Pelotas, sob o comando da delegada Lisiani Mattarredona, e contou com apoio de agentes da Delegacia de Repressão às ações Criminosas Organizadas (Draco), coordenados pelo delegado Diogo Ferreira, de Passo Fundo.


Depois dessa Operação, Belcamino aponta que os golpes foram freados na região, mas não descarta a “migração do crime”, que leva aplicadores do golpe na mira da polícia da região a buscarem outros estados para continuarem com o estelionato.
A lógica do crime é a mesma de anos e as vítimas, aponta o delegado, possuem um perfil semelhante escolhido pelos golpistas: são pessoas idosas, humildes, que vivem no interior e esporadicamente vêm ao centro da cidade. Geralmente os golpes são aplicados próximos a hospitais, onde é encontrado o público alvo.


“Então uma pessoa se aproxima, também humilde, e começa a pedir informações, alegando não ser da cidade”, detalha Belcamino. “Logo ela conta que precisa passar em uma agência da Caixa Econômica Federal pois tem um bilhete premiado no valor de R$ 1,2 milhão.” Na sequência, ela oferece parte do valor do prêmio à vítima em troca de ela o ajudar a encontrar o local que procura. Nesse momento uma outra pessoa aparece. O delegado descreve que esta, diferente da que possui o suposto bilhete premiado, se porta como alguém de muitas posses. Então o aplicador do golpe pede que ambas as pessoas, a vítima e o comparsa, deem uma garantia em dinheiro de que “não irão lhe lograr”, roubando o valor total do dinheiro. O comparsa retira de uma pasta uma grande quantia e entrega esse valor.


Essa atitude faz com que a vítima crie confiança e saque valores para entregar ao golpista que, depois, foge. “A segunda pessoa também pega um telefone e liga para um número como se fosse da Caixa Econômica Federal, que sustenta que o bilhete é premiado”, descreve Belcamino. Em uma investigação, o próprio delegado já ligou para o número de um suspeito e disse que a pessoa que atendeu, disse: “Caixa Econômica, bom dia”, já preparada para o golpe.


A dificuldade de identificar os autores está no “intercambio criminal” apontado pelo delegado. Já que os golpistas, após aplicarem o golpe, buscam outras regiões onde não são conhecidos.


Golpes pela internet
Como após a Operação Stellio esta modalidade freou na região, Belcamino alerta para aos crimes relacionados com a internet e que geram falsos depósitos ou terminam em extorsões.


O mais frequente está relacionado ao anúncio de vendas pela internet – seja nas redes sociais ou em sites destinados para isso. Aqui, os golpistas combinam um local e hora para ver o objeto que querem comprar. Ao se interessarem, ligam para uma segunda pessoa efetuar o depósito do valor total cobrado pelo produto. Porém, o depósito é feito na boca do caixa com um envelope vazio. Como o comprovante aponta para o depósito feito, a vítima entrega o objeto e quando percebe que foi alvo de um golpe os aplicadores já não são localizados.


“A orientação é para que ninguém entregue nada a alguém apenas por ver um comprovante de depósito. O recomendável é que vão juntos ao banco para que seja conferido no ato da venda se o valor foi pago. Tivemos aqui o caso de um rapaz que entregou uma bateria (instrumento musical) e foi lesado”, orienta Belcamino.


Nudes perigosos
Não contabilizado nos 35 casos de estelionato registrados no primeiro trimestre, o delegado alerta para perfis falsos que têm extorquido homens casados. “Foram quatro ou cinco só neste ano”, calcula.


Perfis de supostas mulheres seduzem homens, geralmente casados e com bens, trocando fotos íntimas. O perfil falso envia também imagens, mas quando de posse das fotos íntimas dos homens, passa a chantageá-los, cobrando valores para que não seja exposto pela conversa.


Os valores, nessas extorsões, geralmente giram em torno de até R$ 2,5 mil. Embora não sejam tão altos, se comparados aos já levados no golpe do bilhete – com registros de até R$ 45 mil –, as chantagens não cessam, o que leva às vítimas a registrarem a ocorrência.


“Conseguimos registrar o IP de um dos computadores de onde um desses perfis agia e foi apontado Costa do Marfim (África)”, denuncia Belcamino.


Semelhante a este, e com autoria identificada, uma garota de programa transexual de Passo Fundo também tentou extorquir homens. De acordo com o delegado, ela agia quando os homens negavam o programa ao perceber que ela era uma mulher trans. “Mas como ficavam as conversas salvas e, geralmente eram homens casados, ela ameaçava a exposição caso não fossem pagos valores.” A mulher já foi indiciada duas vezes pelo crime.


Falso sequestro e falso acidente
A farra dos golpes ainda tem as modalidades já conhecidas do falso sequestro e do falso acidente. No segundo, alguém liga para a vítima e mantém um diálogo reproduzido pelo delegado. “A pessoa liga e pergunta: ‘Adivinha quem está indo te visitar?’ Aí a pessoa diz um nome e o golpista confirma. ‘Exatamente, mas olha só, meu carro teve um problema há 100 quilômetros de Passo Fundo. Poderia me ajudar depositando um valor pro mecânico que assim que eu chegar eu te pago?’”, exemplifica Belcamino.


Dessa forma, a própria pessoa dá as informações que o golpista precisa para tirar proveito dela. A recomendação dada é que, em uma ligação desse tipo, a vítima desligue o telefone e entre em contato com a pessoa que o golpista disse ser. O mesmo vale para casos de sequestro. Embora a vítima se assuste diante da possibilidade de ter um ente sequestrado, a medida é para evitar cair em golpe, já que se o sequestro for real, os sequestradores insistirão no telefone para obter os valores.


“E em todos os casos a polícia deve ser acionada e o Boletim de Ocorrência registrado”, frisa Belcamino. “Só assim poremos agir para coibir esses delitos.”


2.628 casos em sete anos
De acordo com o Código Penal, estelionato é uma fraude praticada em contratos ou convenções, que induz alguém a uma falsa concepção de algo com o intuito de obter vantagem ilícita para si ou para outros.


Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio Grande do Sul (SSP/RS), 2.628 casos de estelionato foram registrados de 2012 a 2018 no município – ou o mesmo que 1,02 ao dia no período. No ano passado foram 445 registros, maior número no intervalo de sete anos.



ANO   ESTELIONATO
2018      445
2017      352
2016      304
2015      366
2014      396
2013      363
2012      402

 

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